Etnografia no Virtual

um olhar antropológico na WEB

Arquivo para abril, 2007

Ethnography on the Move: From Field to Net to Internet

Um artigo de Andreas Wittel

Abstract: Traditional ethnographies have been based on the ideas of locality. But with the rise of globalisation processes this concept has been increasingly questioned on a theoretical level. In the last decade, US-American anthropologists called for multi-sited ethnographies. However, the practical implications for research with such a shift have not been broadly discussed yet. Now, with the internet and different kinds of virtual interaction patterns, ethnographic work faces a new challenge. This paper argues that it is necessary to focus on the implications of fieldwork in virtual settings for ethnographic practice.
Key words: ethnography, multi-sited ethnography, virtual reality, internet

PROLIFERANDO INTOLERÂNCIAS

Uma análise do debate a respeito das eleições presidenciais
em duas comunidades do Orkut na Internet

Introdução
A política da mídia não se aplica a todas as formas de fazer política, mas todas as formas de política têm necessariamente de passar pela mídia para influenciar o processo decisório.[1]
Manuel Castells

Introdução
Passar pela mídia. Eis o novo desafio, segundo Manuel Castells advoga, que submete, necessariamente, todas as formas de políticas. Com o advento de novas formas de mídia, em particular àquela associada à Sociedade de Rede, surgem novas formas de comunicação e sociabilidade, e entre elas, as comunidades virtuais centram a presente discussão. A proposta é, num contínuo diálogo com a obra de Castells[2], focar e problematizar a discussão de duas comunidades virtuais, situadas no Orkut: a primeira se define como “pró-Lula”, a segunda como “pró- Alckmin[3]”. Venho acompanhando a discussão das mesmas, desde o primeiro turno para eleições presidenciais, em especial seus tópicos de debates, com o software N*Vivo, me comunicando com alguns de seus membros, por meio do Orkut, observando a contínua mudança nos nomes das comunidades, enfim, apreendendo seus discursos e transformando o mesmo em dados de análise. A questão como novas dimensões abarcadas pela democracia no pós-advento da Internet reformatam o debate político, se divide, neste texto, em três partes, na primeira a análise se centrar;a no primeiro turno eleitoral, na segunda, no período entre turnos e no pós-eleição. Na terceira parte algumas conclusões que teci ao longo do percurso. Como o texto se fundamenta em duas comunidades do Orkut, primeiramente é preciso apresenta-lo: o Orkut é uma comunidade virtual, na qual os participantes aderem por convite de outros membros, e que possibilita a discussão dos mais variados temas, relacionados a inúmeras áreas de interesse. Seu criador, Orkut Büyükkökten[4] (nascido em Konya, em 6 de fevereiro de 1977) um engenheiro de software, desenvolveu a rede social Orkut[5] como um projeto independente enquanto estudava na Universidade de Stanford. Formou-se em 1997, e adquiriu seu PHD em 2002, em Computer Science, e trabalha no Google. Em 19 de Janeiro de 2004 a comunidade virtual foi lançada, objetivando ampliar “o diâmetro social” de seus membros, como afirma em sua página de acesso, e para fazer parte dela é preciso receber o convite de um membro já cadastrado. Ao efetivar este cadastro, o novo membro é convidado a preencher um perfil, dividido em três partes, social, profissional e pessoal, a fazer upload de fotos, enfim, a operacionalizar uma página que descreva sua aparência física, suas preferências afetivas, artísticas e intelectuais, seus interesses, e a se conectar com seus amigos já membros do Orkut, ou convidados por ele. Este sistema é inspirado na teoria de Stanley Milgram[6], na qual se arquitetou que cada um de nós está a somente seis graus de separação de outro grupo de pessoas. Para alguns pesquisadores de redes sociais, e redes digitais, o Orkut seria uma prova definitiva desta teoria[7].
Após o preenchimento do perfil, parcial ou totalmente, é possível se cadastrar em comunidades já existentes, ou ainda criar uma nova. Na página de cada comunidade há espaço para seu nome, perfil, e várias outras informações. Na tabela abaixo, são dadas as informações disponibilizadas pelas duas comunidades estudadas no presente texto[8]:

Tabela Um
O perfil das comunidades analisadas

Dado
Comentário
“pró-Lula”
“pró- Alckmin”
Nome
Nome atual
Nós reelegemos Lula Presidente
Geraldo Alckmin
Idioma
Dos Fóruns
Português
Português
Categoria
Tipo de Comunidade[9]
Governo e Política
Governo e Política
Dono
Quem criou e coordena?
Alex ¹³ Piero[10]
Thierry 45 Besse – Moderador[11]
Data de criação

23 de Junho de 2005
26 de Agosto de 2004
Membros
Número
108.243
154.725
Fórum

Público e não-anônimo
Público e não anônimo[12]
Número de Tópicos
Fóruns abertos
29215
32615

As comunidades se descrevem da seguinte forma no perfil: Comunidade Pró-Lula:
É LULA DE NOVO COM A FORÇA DO POVO!
“Reconheço que Deus tem sido generoso comigo. Mais do que mereço. Eu pedi forças… ” Leia o restante do final do discurso de posse de Lula no Congresso Nacional aqui: http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=2826730&tid=2507636837857477484

FIM DA ENQUETE
Vitória do atual nome, Nós reelegemos Lula Presidente com 61,98% dos votos, contra 38,02% para o nome “Nós apoiamos Lula Presidente”. Parabéns a todos pelo ato democrático!
Mensagem de Lula para nós
http://www.lulaorkut.has.it
Bate-papo da comunidade
http://www.batepapo.has.it
Adesive sua foto
http://www.iapes.com.br/lula/upload.php
Comunidade na imprensa
http://www.imprensa.has.it
Vídeos
http://www.lulavideos.has.it
Convide seus amigos
http://www.convite.has.it
Seus amigos que estão conosco
http://www.aquiconosco.has.it
Fatos que merecem destaque
http://www.pedalaoposicao.blogspot.com
Perguntas freqüentes
http://www.perguntas.has.it
Moderação compartilhada
http://www.moderacao.has.it

Já a descrição da comunidade “pró-Alckmin” informa:
Comunidade oficial de apoio a Geraldo Alckmin.
A MAIOR COMUNIDADE DE GERALDO ALCKMIN NO ORKUT –
Convide seus amigos ¤
http://www.orkut.com/CommInvite.aspx?cmm=316707
Fundador do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira) em 1988.
1972 – Eleito Vereador de Pindamonhangaba
1976 – Eleito Prefeito de Pindamonhangaba
1982 – Eleito Deputado Estadual por São Paulo
1986 – Eleito Deputado Federal por São Paulo
1990 – Reeleito Deputado Federal por São Paulo
1994 – Eleito Vice-Governador de São Paulo
1998 – Reeleito Vice-Governador de São Paulo
2002 – Eleito Governador de São Paulo
2006 – Candidato a Presidência da República Brasileira
Pré-candidato a Presidência da República em 2010
Sem UNIÃO não se vence eleição!

Nesta primeira observação, podemos notar um fenômeno discutido por Castells, a “dimensão tecnológica” que se relaciona com a sociedade em rede, e as reações comunais desenvolvidas a partir desta nova estrutura social (CASTELLS: 1996, 366). São as comunidades que apóiam, denunciam, fazem campanha, reelegem, são elas que se pretendem como uma força de influência no que Castells denominou de “política informacional”. Segundo este autor este compartilhar contínuo entre a tecnologia e a política, evidente no discurso das comunidades analisadas neste ensaio, permitem “a criação de novas regras do jogo” (CASTELLS: 1996, 367), por interagirem profundamente com transformações radicais no âmbito social, cultural e político. A própria essência da política, segundo Castells é afetada, pois colocaria “a direita, a esquerda e o centro” no mesmo embate tecnológico: é preciso atingir os cidadãos também pelos meios midiáticos. Esclarecendo que não advoga por uma teoria que vê na mídia uma força impositora da qual não se poderia escapar, nem no receptor um sujeito passivo diante da mesma, Castells destaca, de maneira precisa, “o papel crucial da mídia eletrônica na política contemporânea”, que se revigorou com as crises dos sistemas políticos tradicionais e da capilaridade dos novos meios midiaticos, formatando assim um novo modus operantis no qual “as informações política são capturadas no espaço da mídia”.
Nesta mesma direção Mark Pôster discutiu a intima relação entre política e tecnologia na Internet, e para o autor a Web é responsável não apenas por instituir novas funções sociais mas também por desafiar nossa existência teórica aproximando-se de questões como a restrição ou expansão da sobrevivência dos ramos executivo, legislativo e judiciário do governo por permitir inusitadas formas de participação política. Pôster também advoga a idéia de que a rede estaria modificando o próprio lugar do debate político, discutindo a esfera pública, retomando idéias de Habemas[13]
O assunto da esfera pública está no coração de qualquer reconceituação de democracia. Relações sociais contemporâneas parecem estar desprovidas de um nível básico de interatividade prática que, no passado, foi a matriz da democratização política: locus tal como o ágora , a prefeitura da Nova Inglaterra, a Igreja da aldeia, o café de casa, a taverna, a praça pública, um celeiro conveniente, um salão, um parque, uma sala de refeições, e ainda a esquina. […] Por muito tempo, teorias críticas têm insistido em uma esfera pública, lamentando o fato da “interferência” da mídia, a indiferença do primeiro rádio e então o papel da televisão na política. Mas o fato é que o discurso político tem sido por muito tempo mediado pelas máquinas eletrônicas: o assunto agora é que as máquinas possibilitam novas formas de diálogo descentralizado e criam novas combinações de homem-máquina reunidos, novas “vozes” individuais e coletivas, “espectros”, “interatividades”, que são os novos blocos construídos de formação política e agrupamentos.

Mediado pelas máquinas, o discurso político das comunidades do Orkut que fenecem os dados desta pesquisa, é o tema, complexo que pretendo ler. Neste contexto teórico é possível desenvolver uma apreensão não apenas deste discurso revelado no perfil das comunidades, mas também e principalmente, como elas reagiram nos diversos momentos: na confirmação do evento do segundo turno, no episódio do “dossiê”, na eleição do presidente Lula, e no período pós-eleitoral. É preciso também pensar a respeito do impacto que as tecnologias de informação e comunicação exercem sobre a própria investigação acerca do tema, pelas ciências sociais, inclusive sobre a maneira de construir a teoria social, segundo o que escreveu Tom Dwyer, também por permitir a publicação e a divulgação de dados e disponibiliza-los de maneira mais ampla e rápida, por disponibilizar bases de dados e fontes de investigação em formato digital, da qual estas comunidades do Orkut são um exemplo, e por fim por propiciar a análise dos dados por meio de software, como o utilizado na presente pesquisa, que permitiram a sistematizam dos dados e identificação de como as comunidades se referem uma a outra, simplificando muitíssimo esta tarefa. Tais mudanças entre outras (DWYER: 2004, 325-333) deixam marcas no presente texto e facilitam minhas questões de análise: quais discussões aconteceram nas comunidades, como se deram as mesmas? Como uma comunidade se referia a outra? Como discutiram os temas que geririam esta eleição presidencial? Como se deu o fluxo de seus membros, ou seja a entra e saída de participantes? É na tentativa de problematizar estas questões que o presente trabalho se inicia.

Preparando o primeiro turno

A comunidade “pró-Alckmin”, formada antes mesmo de se confirmar a candidatura de Geraldo Alckmin como presidenciável, começa exatamente por este debate, que discute em 34 tópicos a candidatura do mesmo, preferindo-o a Serra, e salientando suas virtudes pessoais e políticas, como garantias de vitória[14]. Foram ao todo 412 postagens numa comunidade que já possuía cerca de 140.000 membros.
”Nestes tópicos o nome de Lula aparece diretamente quinze vezes, ao em diversas expressões: é preciso “chutar fora a corrupção/Lula/PT”, a comunidade informa, por meio de seus membros: “nao basta o Lula ter continuado o mesmo modelo porco de governo de FHC, e ter feito muito pior”. Sem se dar conta que Geraldo Alckmin é exatamente do mesmo partido que Fernando Henrique Cardoso. É importante lembrar que este fenômeno concorda com a teoria de Castells que aponta uma grande reestruturação da política, pelo processo de “personalização dos eventos” (CASTELLS: 1996, 380). São os políticos os atores do drama. Então não importa o partido: “eu voto é no candidato” afirmam 216 membros da comunidade, durante os tópicos. Jaime, um dos membros, informa-nos, em 23 de janeiro de 2006: “melhorar as estradas federais que estão um verdadeiro caos, pois o Lula não fez nada, também só anda de avião, para que asfalto?” Esta seria uma tarefa do “experiente governador de São Paulo”, segundo André que concorda com a habilidade do mesmo em resolver problemas de estrada… E Jaime acrescenta: “Geraldo não deixará as estradas do Brasil como o Lula, deixou, pois Geraldo é competente”. Na infovia, toma-se partido claramente, como o faz, Alllysson: Eu voto no Alckmin desde Outubro de 2005, quando vi na tv que ele diminui o imposto no estado de São Paulo, e o estado cresceu. Acredito que ele terá capacidade de fazer isso também no Brasil, já o Serra, gostei muito do trabalho dele, quando foi ministro da saúde, mas as palavras ditas por ele, na candidatura de São Paulo(ficarei 4 anos, como prefeito), será instrumento para o Lula, chamá-lo de mentiroso. Eu acho que se for o Serra, será fácil para o Lula, e mais 4 anos de Lula , fala serio…” Nota-se que as pessoas são mais importantes que idéias, segundo apontava Castells, o que fica mais claro na medida que gradativamente a eleição se aproxima: se no início ainda aparecem estradas e educação, posteriormente vai se formando, nas comunidades um perfil de seu candidato e um perfil de seu concorrente. Já nesta fase a comunidade que apóia Geraldo Alckmin denomina Lula de sapo várias vezes, ou de corrupto, ou de cego. E também o observa como um candidato muito dificil de ser derrotado. Informa-nos Allysson:
Um importante dirigente do PSDB dizia, há tempos, que o candidato do partido à Presidência da República seria escolhido por um critério simples: se a eleição fosse muito fácil, Fernando Henrique. Se fosse fácil, mas nem tanto, José Serra. Se fosse difícil, Geraldo Alckmin. Se fosse muito difícil, o candidato seria algum tucano de fora de São Paulo. Para o PSDB, a eleição, pelo jeito, está difícil. É, portanto, a hora de Alckmin. A análise do dirigente tucano tem, além do tempero da maldade, uma certa lógica. Serra tem mais três anos de mandato como prefeito; se sair e perder a eleição, fica sem nada. Já Alckmin está terminando seu período de governo. Está disposto, portanto, a correr mais riscos eleitorais do que Serra. E o prefeito paulistano, como não disse oficialmente que é candidato, pode simplesmente ficar no cargo, sem precisar desistir de uma campanha na qual não disse que entrou.

Se a discussão é acerca de quem poderia ser o vice de Geraldo Alckmin, os membros são taxativos:
“Eu prefiro José Agripino por três motivos: 1. está desempenhando muito bem o papel de líder do seu partido no senado; 2. É mais carismático do que Bornhausen; e 3. Acrescentaria mais à chapa em termos regionais, pois ficaria o candidato a presidente do sudeste e o vice do nordeste, ressaltando que é na região nordeste aonde Lula tem o seu melhor desempenho eleitoral e um candidato a vice na chapa contrária pesaria no momento da escolha. Por tudo isso, acho que José Agripino acrescentaria mais como candidato a vice”. (postado por Henrique)

Uma forte rejeição a Lula se manifesta, e dados que apóiam este posicionamento, são fartos nos tópicos:
” Mas o presidente continua a enfrentar problemas sérios de rejeição, apesar de ter melhorado também nesse quesito. Hoje são 53% os que consideram que ele não merece uma segunda chance, enquanto 45% apóiam a reeleição. Mas esse número já foi pior: em dezembro do ano passado, a reeleição de Lula chegou a ter a rejeição de 61% do eleitorado. Atualmente, o índice dos que não votariam nele de maneira alguma está em 31%, enquanto os que já decidiram votar é de 34%. “

Como teorizou Castells o papel da Internet em difundir informação é eficaz e inquestionável, tanto que o comentário acima provocou um tópico com 116 postagens na outra comunidade, que defendia o presidente, como o candidato do povo. Outro tópico é abertto na comunidade “pró-Alckmin” e nela Márcia adverte: “Lula é de longe o candidato mais conhecido do eleitorado, mais conhecido até mesmo que Serra, e está sozinho na raia neste momento. O governador Geraldo Alckmin é o menos conhecido de todos, sendo que uma parte da população diz que nunca ouviu falar dele.” E são candidatos que ganham ou perdem eleições, nunca idéias ou propostas de governo: “Saibam que tanto Alckmin quanto Serra terão boas chances se nossos palanques estaduais forem fortes. Do contrario o Lulão levara a eleição.” Castells discute esta “personalização”num contexto que engloba: “a) o declínio dos partidos políticos, bem como do papel por eles representado na escolha de candidatos; b) o surgimento de um complexo sistema de veículos de comunicação […]; c) o desenvolvimento do marketing político”(CASTELLS: 1996, 374 e 375). No debate que antecede a escolha de Alckmin como candidato à presidência da República, os três aspectos interagem na comunidade, de forma evidente e precisa. Os dados também concordam com a idéia expressa por Pôster acerca da comunicação política na rede: “o que está em jogo é a solicitação direta para a construção de identidades no curso das práticas de comunicação. Usuários inventam sobre si próprios e fazem isso repetida vezes e de diferentes formas ao longo da conversação ou mensagem eletrônica.” Muitos perfis trazem fotos do candidato no lugar do participante, ou de seus aliados. Identidades são fabricadas, mensagens são abundantes: a idéia é produzir ao máximo. Isto nos recorda Wolton: “o cidadão é um gigante em matéria de informação” e nas comunidades, discordando deste autor, não é um nanico em ação, porque posta, cria tópicos, invade a outra comunidade com um perfil falso, faz da rede uma verdadeira arena.
Antes do primeiro turno a comunidade “Nós votamos LULA 13”, primeiro nome da comunidade “pró-Lula”, estava com cerca de 4 mil membros. O debate era menor, apenas respondendo ao que entendia como provocação da comunidade “pró-Alckmin”, em particular quando o presidente era ofendido, por sua origem pobre,nordestina ou por sua aparência (estes elementos dão origem a cerca de 300 postagens). A única exceção se dá no debate acerca do índice de rejeição do presidente. Os tópicos criados na comunidade se destacam por discutir educação, saúde e moradia. Para comentar a respeito das propostas do oponentes as mensagens parecem bem menos agressivas, e mais elaborada:
O governo de Geraldo Alckmin continua a aprovar seu pacote de ataques à educação. Após vetar o aumento em 1%, passando por cima do aprovado na Assembléia Legislativa de LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) e de reduzir a verba da educação estadual por ao seu menor índice em quatro anos, Alckmin fez manobra orçamentária de contabilizar desconto de tarifa como sendo investimento na educação e dessa forma reduzindo o montante que de fato deveria estar sendo destinado a esta pasta. Este fraude contábil resulta em transferência de orçamento do setor de transportes para e educação, o que significa um corte brutal na magnitude de R$ 32 milhões. Para se ter um parâmetro da redução de gastos o montante é de cerca de 10% dos gastos do governo nas instalações de todas as escolas estaduais no ano de 2004. Este é, portanto mais um ataque de Alckmin a educação paulista.
E ainda:
Dados do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) demonstram que a qualidade do ensino paulista é pior que a média do Brasil. Segundo esta fonte oficial a porcentagem de alunos que se encontram nos estágios crítico e muito crítico representam 41,8% do total de alunos do estado. Ao passo que em nível nacional os alunos que se situam nestes mesmos estágios representam 5,6% do total. Portanto, levando-se em consideração este indicador relevante e oficial o desempenho da educação gerenciada por Alckmin é 86,6% pior que a do Brasil.

Claro que me restrinjo na análise de duas comunidades, e nestas a diferença parece imensa, na comunidade pró-Lula, quase não aparecem ataques pessoais, quando se dão, não se fala da pessoa Alckmin, mas de seu comportamento político, e a informação circula… Deco, por exemplo, postou:
Governo Alckmin impede 67 CPIs na assembléia paulista. Desde 2003, com a reeleição do governador Geraldo Alckmin, a Assembléia Legislativa de São Paulo não sabe o que é uma Comissão Parlamentar de Inquérito funcionando. No entanto, 67 CPIs aguardam a hora de ser instaladas: 58 estão prontas para instalação e outras nove para verificação de assinaturas. A tática da base governista é usar um mecanismo regimental que condiciona a instalação das comissões a acordo de líderes. Sem acordo sobre quais assuntos devem ser investigados, as CPIs não são instaladas. Quais são elas, por área: São 18 pedidos de investigação nas áreas de economia e tributação. A maior parte se refere às irregularidades de setores privados sobre a arrecadação de tributos, concessões de créditos para privatizações e a guerra fiscal entre os Estados. Onze pedidos tratam da área de serviços públicos como as irregularidades praticadas pelas concessionárias de telefonia fixa e móvel. Dez pedidos são ligados a questões sociais como saúde, educação, problemas ligados ao trabalho no campo e assistência social. Nove pedidos na área de saneamento e questões ambientais, envolvendo os problemas de abastecimento de água na região metropolitana, irregularidades de exploração em espaços de preservação ambiental e casos de contaminação de solo em áreas residenciais. Outros nove pedidos de investigação de irregularidades e superfaturamento como os casos da construção do Rodoanel, do rebaixamento da calha do rio Tietê, do metrô, e a construção de casas populares pelo CDHU. É esse o presidente que queremos??????
O debate apenas começava. O primeiro turno aos poucos se aproximava, e as comunidades atingiram números bem maiores: a primeira “pró-Lula”, chega perto dos 60.000 membros, a segunda como “pró- Alckmin ultrapassa os 190.000.

Um novo tratado de Tordesilhas?
Nasce o primeiro turno. Na manhã de segunda-feira novas discussões disparam na mídia. No então 2 de dezembro a mídia impressa, televisiva e na Internet questionava a divisão que parecia sugerir um novo tratado de Tordesilhas, segundo a revista Isto É Dinheiro. Informava a reportagem: “As regiões Norte e Nordeste seriam a ‘América’ de Lula. Centro-Oeste, Sul e grande parte do Sudeste são o continente de Geraldo Alckmin[15] . Depois do resultado do primeiro turno a comunidade “pró-Lula”e atingiu a marca de 114.052, e continuaria crescendo até os 300.000 participante registrados por ocasião do segundo turno. A discussão se modificara drasticamente: o resultado das urnas parecia apontar um quadro em que o Brasil se dividia em dois: O Norte e Nordeste votavam Lula, o Sul, Centro-Oeste e Sudeste no candidato Geraldo Alckmin, seu maior concorrente. As comunidades disponibilizam para seus membros a possibilidade de “adesivar”sua foto do perfil do orkut, ou seja colocar uma tarja de propaganda de Lula ou Alckmin. É interessante notar que o 13 ou o 45 sobrescrito ao lado do nome se tornou marca de muitos participantes. Entre os milhares de fóruns da comunidade, àqueles que abordariam a questão da divisão do país, são o centro desta segunda parte. A idéia expressa na afirmação de Castells, que apresenta como característica importante da sociedade informacional, ainda que não esgote todo o seu significado, “a lógica de sua estrutura básica em redes, o que explica o uso do conceito de ‘sociedade em rede'” (Castells, 1999: 46, nota 33) é de particular elucidação neste caso. E é na rede, de participantes, de respostas, e principalmente, de discussões por ambos levantadas que pretendo me deter neste momento.
Nesta ocasião o debate se aquece de maneira drástica: racismo, injurias, ofensas e palavrões são notadas nas postagens. Lula é “o nordestino maldito” (5 vezes), o “nordestino ladrão e analfabeto”(12 vezes), “candidato de pobre, preto e nordestino” (129 vezes), “fedorento”(2 vezes), corrupto (19 vezes), “cego que se faz de tonto”(2 vezes). Geraldo é o “racista” (110 vezes), “não gosta de nordestino” (4 vezes), hipócrita (140 vezes), “não gosta de pobre” (8 vezes). Neste debate os dados demonstram, inclusive pela referência que um tópico de uma comunidade faz a outra, e às datas de postagens que a comunidade pró-Lula se posicionava mais eticamente, muitas vezes apenas respondendo às provocações da comunidade “pró-Alckmin”, ainda que algumas vezes tenha provocado a primeira sempre se referindo ao candidato como “picolé de chuchu”(459 vezes), ou como tucanada (uma refer6encia ao totem partidário do candidato – 436 vezes). Mas, em nenhum dos tópicos ele foi agredido por origem étnica ou racial. Mas, agrediu-se bastante o ex-governador por sua possível vinculação com a Opus Dei: foram 349 vezes, e em muitas delas a intolerância era gigantesca: “o enviado maldito da Opus Dei”, por exemplo…
Uma outra questão,a que se denominou de “Brasil dividido”, apresentada por Diogo num fórum “pró-Lula”, é bastante interessante:
“Pq o povo da Região Sul prefere o Alckmin?”. A esta pergunta, no título do Fórum, ele acrescenta um post: “Pq o povo da Região Sul prefere o Alckmin? Queria saber o que esse sujeito fez de bom pra essa região. Pq pelo que eu saiba o Lula obteve somente 34% dos votos não foi isso? O Alckmin conseguiu mais de 60% lá. Portanto, temo que fazer mais divulgação petista lá no Sul. Pq eles preferem o Alckmin isso que eu queria saber?” A resposta, é abordada, neste texto, em cinco postagens: cinco passagens (dados filtrados pelo NVIVO),
Mariana LULA 15/10/2006 21:44 Moderador, SC, pelo menos nas últimas eleições, não foi assim… Florianópolis foi a capital com o maior número de votos para Lula… Aqui, por exemplo, a HH teve 16%, uma média, mto maior que a nacional…Acho que se o PT investisse mais por aqui, poderia arranjar parte dos votos da HH…O problema maior acho que está na candidatura do Governador… O Luis Henrique que apoiava o Lula nas últimas eleições, tá apoiando o Chuchu nessas…É um safado, traíra…Como o seu adversário Amin não vai apoiar o Lula, acabou que o Lula não tem apoio de nenhum candidato no segundo turno :… Faltou poder político…

Eduardo 15/10/2006 21:52 Infelizmente, o Bolsa Família não tem poder decisivo no Sul, até porque muitos beneficiados são influenciados pela mídia, e sempre tem parentes ou amigos (de melhores condições financeiras) que tendem pra direita. Os programas do governo do Sul foram quase todos àqueles genéricos, que existem por aqui, e em todos os lugares (exceto a duplicação da BR-101 sul em Santa Catarina, e a transformação do Cefet de Curitiba em Universidade Tecnológica Federal). Fora isso, repito, não houve nada específico para o Sul. É lógico que Farmácias Populares, maior crédito habitacional, incentivo à agricultura familiar e outros programas de alcance nacional são importantes. Mas a mídia do Sul é direitista, e os prefeitos do Sul são mais oportunistas. Na cidade onde está a maior parte de minha família (Umuarama – PR), por exemplo, a prefeitura retirou a logomarca do Governo Federal da Farmácia Popular, e o prefeito de lá, que do PPS (argh!) e apoia o Alcrime, acaba colhendo frutos para si, e para quem ele apóia. Repito, o Lula deveria criar extensões universitárias no interior dos três Estados, implantar mais delegacias da Polícia Federal, que não correspondem ao número de comarcas federais do TRF4, recuperar as rodovias federais, até para fazer frente às rodovias estaduais de lá. Se isso fosse feito, já seria muito bom. Peço muitos votos para o Lula, mas ele vai precisar de fazer propostas específicas (específicas mesmo) para o Sul.

Jorge 16/10/2006 09:04 Mateus não tem autoridade para falar do RS Companheiros, Fico pasmo que um companheiro (?) coimo o Mateus diga inverdades que não condizem com a verdade. O candidato Olívio não merece o que foi afirmado pelo rapaz. Ele não embora a Ford, como a direita e a mídia daqui tenta passar nos últimos oito anos. Na verdade, aconteceu um golpe. Sob o comando de FHC, foi aprovado um projeto que permitia ao governo baiano dar uma série de benefícios ao grupo multinacional. Olívio, na verdade, defendeu o Estado porque não poderia competir, deixando o Estado na míngua, como tinha feito o Antônio Britto. Mais: o governo Olívio foi excelente, dando prioridade para a agricultura familiar e para os pequenos e médios empresários, além de criar a universidade regional e adotar o festejado Orçamento Participativo. O que aconteceu é que a direita e grande imprensa fizeram uma lavagem cerebral na população, que parece ter afetada inclusive o Mateus.

Fabiano 16/10/2006 09:28 Sobre o Mateus! Ele disse que votava Gertaldo e perguntou se poderia postar as razões dele sobre sua intenção de voto. Muitos que estavam na sala faslaram que tudo bem… ele então se posicionou, em nenhum momento foi derespeitoso ou preconceituoso. Nós queremos decobrir e desconstruir essa amarra que colocaro no PT aí no sul para mudar a intenção de voto . Sou de São Paulo, tomasmos cacete no primeiro turno e tomaremos outro no segundo, tudo bem estamos acostumados. mas sempre comemoramos as nossas vitórias aí no sul, esse rewsulatado nos decepciona, parece que temos culpa, isso não pode acontyecer. Sem radicalismos. Até a vitória sempre.

Danilo Flavio 28/10/2006 13:38 … Outra coisa também, a maioria dos eleitores que votam em geraldo alckmin são de maior poder aquisitivo, isso todo mundo sabe … esse é um dos motivos também afinal de contas a região sul tem muitos decendentes de alemães entre outras nacionalidades que são muito ricos.

Prolongando o debate, ora responsabilizando o desempenho de Lula nos estados sulistas, pela via de justifica-lo como falta de apoio político, ora considerando como preconceito, ainda que ignorando resultados obtidos pelo candidato anteriormente, ora responsabilizando a mídia, como afirma o internauta: “Bruno 15/10/2006 21:30 Opinião de um Paulista: Mídia + Crise agrícola + Preconceito e falso moralismo (de alguns claro)”, ou, ainda,
Guilherme 15/10/2006 22:08 MINHA HUMILDE OPINIÃO: 1º Campanha fraca do PT no Sul – SC; 2º Prefeitos e Governador usaram obras federais para benefício de campanha própria. No caso dos prefeitos, o apoio à candidatos ao senado, câmara e gov. dos partidos de oposição à Lula foi forte. E muitos usaram este “artifício”. Provo: Idelí Salvati PT/SC, denunciou o TRAIDOR LHS – que se elegeu 2002 por ter apoio de Lula – por divulgar que SAMU era conquista de seu Gov. Fato. 3° Acesso rápido à informação. O que gerou o voto de protesto; 4° Em Santa Catarina o Curral é do Jorge Bornhausen – PFL. SC, em especial Fpolis é cabideiro de emprego para todo lado; 5° Fato que já denunciei aqui e reafirmo: Existe um complô fortíssimo entre unidades de ensino médio – cursinhos – que estão vendo seu IMPERIO ameaçado em virtude da facilitação do acesso às universidades particulares – Bolsa Art.170, PROUNI, Financiamentos junto à CEF. Os alunos questionam-se: Para que fazer vestibular se tenho acesso tranquilo em boas univ. particulares? A UFSC é tomada por burgueses. Os alunos tem carros MUITO superiores aos dos professores… E com certeza não trabalham: A maioria dos cursos são de período integral. E para matar: Jovens entre 16 e 24 anos são 21% do eleitorado do Sul; 6º A mídia atribui ao governo a queda na produção de grãos no Sul. Mas o gov. liberou 20bi para os agricultores. O que eles esquessem é da seca: A MAIOR DOS ULTIMOS 25 ANOS. 7º Empresário força o voto de cabresto: O Empresário Catarinense tem hábito de sonegar! Fato! Com a maior eficiência na cobrança dos tributos e impostos, muita empresa quebrou e/ou foi notificada pela receita fed.; 8º A maioria de nós aqui no Sul tem INSTRUÇÃO e não CULTURA E MEMÓRIA POLÍTICA. São coisas diferentes e que acredito que os Bahianos estão muito na nossa frente – tenho humildade para reconhecer; E para fechar minhas opiniões – acho que tem mais coisa – o BAIRRISMO. O Sul achava que o gov. Lula deveria dar prioridade para quem o apoiou com mais peso – salvo proporções. Muitos não aceitam o apoio dado ao Norte/Nordeste – BURRICE.

Note-se nos textos dos internautas como a “ação de conhecimentos sobre os próprios conhecimentos como principal fonte de produtividade”(Castells, 1999: 35), expressando o novo paradigma tecnológico, baseado na tecnologia da informação.
Já na comunidade que apoiava o ex-governador de São Paulo, a explicação se daria em outros termos:
Sou um dos milhões de portadores da carteirinha (de arrependido por ter votado no PeTralha-mor em 2002) que afirma: “Há 3 coisas que só se faz uma vez: Nascer, morrer e votar no PT”. O único espetáculo do crescimento que se vê no desgoverno do PT é o da corrupção; o discurso do Luiz Pingácio pretende semear a animosidade entre 2 grupos: 1) Os que votam nele porque recebem suas esmolas e 2) Aqueles que ele considera elite, porque têm emprego decente e não precisam de suas bolsas-esmola. Certamente há um terceiro grupo que vota nele porque não aceita a idéia de largar o osso.

Ou ainda:
Não sou nenhum idiota”, diz isso e vota no LULLALAUDRÃO, faz-me rir… quá, quá, quá…Talvez tenha razão, idiota somos nós o sul, sudeste e centro-oeste, que trabalhamos duro, das 7:00h às 18:00h, para sustentar os imbecis vagabundos do norte e nordeste, e os que aqui vivem.

É importante observar que esta forma de se referir aos eleitores do Norte e Nordeste, claramente um crime de racismo, foi exponencialmente crescente na medida em que se aproximava o segundo turno. Em 148 tópicos 673 expressões semelhantes foram organizadas pelo N*Vivo, a ponto de eleitores de Geraldo Alckmin que moravam nas regiões ofendidas exigirem respeito e ameaçarem denunciar o mesmo às autoridades, como fez Geraldo:
Pense duas vezes antes de falar no povo nordestino,lembre-se que a maioria deles aí no “sule” é que põe a locomotiva (se é que ainda há) pra movimentar, certo ?Se não fossem os nordestinos radicados nessa região, ela já teria desaparecido do mapa,ou o mapa do desenvolvimento brasileiro estaria agora de cabeça pra baixo, se é que vc me entende. Isso é crime, vou avisa a PF

Ou como o postado por Elias:
Não vou discutir com vc sobre a importância do empresariado paulista (sobretudo o paulistano) na economia nacional,mas vc há de convir q o homem mais humilde e que levantou prédios,abriu ruas e avenidas,derrubou preconceitos e tbm votou como os demais, teve e tem importância numa nação, né? Se não acha,pode perguntar a qualquer nova-iorquino e ele lhe dará a resposta (agora,ainda têm os simples bombeiros de lá para contribuírem com a fama da cidade).

O debate Sul/Sudeste x Norte/Nordeste parecia algumas vezes acontecer dentro da comunidade que apoiava o ex-governador de São Paulo. E na eleição de Lula, não faltou quem desejasse o separatismo (39 comentários)… A sugestão de um Brasil dividido parece simplista por demais, mas o debate acerca da questão serviu para revelar um lado extremamente preconceituoso presente na rede. Comunidades foram criadas para discutir o tema da integração nacional “pró-Lula” como uma resposta aos desejos explicitados pelos membros da comunidade “pró-Alckmin” mais radicais.
Outro debate marcante se deu por ocasião do episódio do dossiê[16], que gerou 467 tópicos na comunidade “pró-Alckmin” e 322 na comunidade “pró-Lula”. Nos textos postados sempre é sugerido que o presidente Lula estaria envolvido no escândalo, ou se não, é inapto demais para governar, porque permite tamanho absurdo sob seus olhos: Como enfatizou Aparecido: “Ou é ladrão, corruPTo, ou não sabe governar! Na dúvida vou de 45”. A comunidade que defendia o candidato lula exigia a divulgação do dossiê, e salientava que ele pertencia a um grande complô para evitar a reeleição do mesmo, construído pela revista Veja e pela Rede globo de Televisão. Matérias da revista Carta Capital eram copiadas na integra nos fóruns, e links para as mesmas eram postados na comunidade adversária, por membros que se infiltravam por meio de falsos perfis.
Posterior ao segundo turno, a comunidade “pró-Lula” e a comunidade “pró-Alckmin” reduziram seu número de membros. Destes, quase nenhum guardou o adesivo ou o número sobrescrito que identificava o eleitor e o relacionava a seu candidato. A primeira se destaca por discutir o programa atual de governo. A segunda em elaborar a proposta da candidatura do ex-governador para o ano de 2010. Não há quase comentários sobre todo o fenômeno racista que se observou na etapa anterior. Em que lugar ele teria sido guardado?

No caminho perguntas, foram respondidas?

A tentativa de problematizar o fenômeno eleitoral sob a ótica de Manuel Castells se revelou elucidativa e interessante. Em seu trabalho, a noopolitik refere-se às questões políticas engendradas ou suscitadas pela noosfera comunicacional que se estabelece na contemporaneidade. Para ele, a noopolitik não anula a realpolitik – “abordagem tradicional em termos de promoção do Estado na arena internacional, mediante negociação, força ou uso potencial da força” -, mas lhe pode ser contraposta. Na Era da Informação, afirma, a realpolitik se mantém, mas permanece circunscrita ao Estado, “numa era organizada em torno de redes, inclusive redes de Estados” (CASTELLS: 1996, 139). Nesta nova forma de pensar a política, emergem comunidades, como estas do Orkut, que ao debaterem, informarem, se contestarem, revelam da realidade nacional muito mais do que um período eleitoral abarcaria. Neste segundo volume de sua trilogia, “O poder da identidade”, o autor abarca idéias e análises de 25 anos de estudos a respeito dos movimentos sociais1 e dos diversos processos políticos de várias regiões do mundo, discutidas a luz da teoria da Era da
Informação. Castells examina as duas grandes tendências conflitantes que moldam a sociedade da informação: a globalização e a identidade. Pensando, pois, a sociedade em rede, no âmbito da revolução tecnológica e informacional e da nova economia,discute as características dela decorrentes: globalização da economia, flexibilidade e instabilidade do emprego, individualidade de mão-de-obra, a “realidade midiatizada”, o espaço de fluxos e o tempo intemporal. Neste trabalho a teoria de Castells se evidencia na realidade das comunidades: a força comunal personaliza a política e as próprias comunidades, que reagem umas a outras e se acreditam indivíduos: reelegem, apoiam, votam, pensam, denunciam, informam: o poder está na rede, não mais centralizado, mas disperso, no entrelaçado dos links, na possibilidade de comunicar, defender, expor, e inclusive e infelizmente desrespeitar o humano do outro. O racismo tão presente na “democracia racial” brasileira prolifera pela comunidades do Orkut, num convite claro a um posicionamento.
Acredito que o fenômeno do racismo revelado no presente trabalho deve incomodar profundamente aos cientistas sociais, não apenas como objeto de estudo, mas como dado que exige um posicionamento claro. Nos últimos cinco anos tenho pesquisado o ciberracismo, e é com um trecho de um trabalho apresentado em um Congresso virtual, acerca do tema, que termino o presente trabalho:
A idéia de que reconhecer o Outro como objeto de ódio, é para o agente deste habitus uma forma de garantir o reconhecimento, por parte da comunidade racista[17] de uma situação de pertencimento, que expressará, de alguma forma, uma situação de segurança e distintividade. […] Inscritas nas ilhas etnografadas no oceano digital, estas práticas celebram rituais, enquanto rememoram seu mito, em cerimônias hipertextuais demarcadas pelos links que as interligam. Links de ódio. (DIAS, 2006, 14)

Neste momento, uma nova (velha) fronteira de pesquisa salta aos olhos: racismo e política. O discurso racista quer a sua solução para o problema político, e busca-se soluções políticas (inclusive de inclusão) para a questão racista. No entanto, para além de toda a complexidade que esta questão exige, que não cabe, infelizmente nos limites propostos a este trabalho, mas que levarei adiante em futuras pesquisas, há o ódio. O ciberódio, a intolerância feita site, feita fórum, feita postagem. Por quantos tópicos este ódio se perpetuará?

Referências Bibliográficas
CASTELLS, M . O poder da identidade. São Paulo: Paz e Terra, 1999
DIAS, ª Ciberracismo, entre o ódio e a militância. Anais da tercera edición del Congreso ONLINE del Observatorio para la CiberSociedad bajo el título Conocimiento Abierto, Sociedad Libre, Barcelona, 2003.
DWYER, T. Tecnologias de información y comunicación. … Investigaciones Sociales ano VIII, no 12, Lima. 2004. pp 325-335.
EISENBERG, J. e Cepik, M. (orgs) 2002. Internet e Política: Teoria e Prática da Democracia Eletrônica. BeloHorizonte, Editora da UFMG.
NEWMAN., M. E. J. From the cover: the structure of scientific collaboration networks. Procedings of the National Academy of Sciences of USA (PNAS), V. 98
POSTER, M. Ciberdemocracy: The Internet and The Public Sphere In: David Porter (Ed), Internet Cultura. 1997


[1] CASTELLS, M. O Poder da Identidade. São Paulo, Paz e Terra, 1999 (Obra original de 1996), pp. 374.
[2] As relações entre Internet e política são pensadas por diversos autores, como o cientista político José Eisenberg, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), um estudioso das questões que envolvem o uso da rede mundial de computadores no fortalecimento da democracia nas sociedades, em especial a brasileira
[3] Doravante denominarei as comunidades como “pró-Lula”, e “pró- Alckmin”, para dar conta, inclusive, do intenso processo de mudança de nomes que observei nas mesmas.
[4] O site pessoal do engenheiro turco Orkut está disponível em http://www.stanford.edu/~orkut/self.html e seu perfil no Orkut é http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=325082930226142255. Há outros perfis falsos (denominados de fakes, no Orkut) que afirmam pertencer a ele.
[5] Os dados estatísticos utilizados são de
[6] Milgram concebeu este dado por meio de uma experiência realizada com 160 pessoas , moradores de Boston e Omaha (Nebraska), nos EUA. Cada um dos participantes recebeu de Milgram as instruções para que a mesma chegasse a uma pessoa-alvo, nativa de Sharon, Massachussets, mas que morava e trabalhava em Boston. Não era permitido enviar a correspondência diretamente à pessoa-alvo, mas apenas por meio de amigos e conhecidos que facilitassem o contato com ela. O nome de cada participante era inscrito na correspondência de modo a viabilizar o monitoramento do caminho percorrido até o seu destino final. Este método ficou conhecido como small-world. Ao término da experiência, Milgram calculou o número médio de seis intermediários entre os participantes. Conhecida como “Seis Graus de Separação”, o experimento de Milgram demonstrou como operacionalizam-se as redes sociais.Os “seis graus de separação” representariam 10 elevado a 6º potência, resultando em um milhão de contatos, exponenciando o poder das redes sociais.
[7] Cf. NEWMAN., M. E. J. From the cover: the structure of scientific collaboration networks. Procedings of the National Academy of Sciences of USA (PNAS), V. 98, P. 404-409, JAN 2001; 98: 404 – 409. Disponível em: http://www.pnas.org/cgi/reprint/98/2/404. Acesso em: e também WATTS, D. J. Small Worlds: the dynamics of networks between order and randonmness. Princeton, New Jersey: Princeton University Press, 1999.
[8] Os dados se referem a 24 de janeiro de 200.
[9] Selecionada, no ato de criação da mesma, entre as disponibilizadas pelo Orkut.
[10] Perfil disponível em http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=12039168275152215969
[11] Perfil disponível em http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=907224195596735433
[12] Durante a campanha do segundo turno a comunidade variou entre pública e privada.
[13] Prevendoum colapso da esfera pública, e de sua conceituação, o que levaria a uma crise de democracia política, Jürgen Habermas publicou The Structural Transformation of the Public Sphere (A Transformação Estrutural da Esfera Pública) em 1962. É neste livro que se baseia a argumentação de Pôster para discutir este “colapso”, que modificou profundamente, nas últimas década a forma de fazer política. Infelizmente, presa ao limite do presente texto, não aprofundarei esta questão no momento.
[14] Para concorrer pelo PSDB à presidência da República, Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho superou a disputa interna com José Serra, que foi candidato no pleito presidencial de 2002. Com o apoio da cúpula tucana, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Alckmin foi oficializado pelo partido em 14 de março.
[15] Matéria disponível em http://www.terra.com.br/istoedinheiro/473/economia/brasil_dividido.htm
[16] Segundo informou a Folha de São Paulo: “A 15 dias das eleições, a Polícia Federal apreendeu vídeo, DVD e fotos que mostram o candidato do PSDB ao governo de São Paulo, José Serra, na entrega de ambulâncias da máfia dos sanguessugas. O material contra Serra seria entregue pelo empresário Luiz Antônio Vedoin, chefe dos sanguessugas e sócio da Planam, a Gedimar Pereira Passos, advogado e ex-policial federal, e Valdebran Padilha da Silva, filiado ao PT do Mato Grosso. Gedimar e Valdebran foram presos, em São Paulo, com R$ 1,7 milhão. Eles estavam no hotel Ibis, e aguardavam por um emissário do empresário, que levaria o dossiê contra o tucano. O PT nega que o dinheiro seja do partido. O emissário seria o tio do empresário, Paulo Roberto Dalcol Trevisan. A pedido de Vedoin, o tio entregaria em São Paulo o documento a Valdebran e Gedimar. Os quatro envolvidos foram presos pela Polícia Federal. Em depoimento à PF, Gedimar disse que foi “contratado pela Executiva Nacional do PT” para negociar com a família Vedoin a compra de um dossiê contra os tucanos, e que do pacote fazia parte entrevista acusando Serra de envolvimento na máfia. Ele disse ainda que seu contato no PT era alguém de nome “Froud ou Freud”. Após a denúncia, o assessor pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Freud Godoy, pediu afastamento do cargo. Ele nega as acusações. Após o episódio, outros nomes ligados ao PT começaram a ser relacionados ao dossiê. Esse é o caso do ex-coordenador da campanha à reeleição de Lula, Ricardo Berzoini, presidente do PT. Seu ex-secretário no Ministério do Trabalho Oswaldo Bargas (coordenador de programa de governo da campanha) e Jorge Lorenzetti –analista de mídia e risco do PT e churrasqueiro do presidente– procuraram a revista “Época” para oferecer o dossiê.” Disponível na Internet em www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u83573.shtml –
[17] Conforme saliente em minha pesquisa e no artigo já citado, trata-se de um crime, assim caracterizado pela legislação brasileira. Alguns sites advogam o direito à liberdade de expressão e afirmam não se considerarem racistas, expressarem apenas opiniões. Outros sugerem maneiras de como manter o material distante das autoridades competentes. Por esta característica, muitos sites, principalmente os disponibilizados em provedores gratuitos são retirados do ar, para em seguida reaparecerem, múltiplos em três ou quatro servidores novos, inclusive em domínios estrangeiros. Um dos sites pesquisados afirma exatamente isto: para cada site retirado do ar, assume-se o compromisso de disponibilizar, pelo menos, três novos. Isso evidencia uma rede.

Claude Lévi-Strauss

A história não está ligada ao homem, nem a qualquer objecto em particular. Consiste inteiramente no seu método; a experiência comprova que ele é indispensável para inventariar a integralidade dos elementos de uma estrutura qualquer, humana ou não humana. Longe portanto de a pesquisa da inteligibilidade resultar na história como o seu ponto de chegada, é a história que serve de ponto de partida para toda a busca de inteligibilidade. Assim como se diz de certas carreiras, a história leva a tudo, mas contanto que se saia dela.


Claude Lévi-Strauss, in ‘O Pensamento Selvagem’

comntários acerca de meu artigo no CiberCongresso…

El artículo de Adriana Dias afronta el estudio del racismo en el espacio de Internet. Lo hace desde una aproximación etnográfica centrada en el análisis de foros virtuales de contenido racista como escenario de práctica social. El artículo debate sobre los significados culturales ocultos en las conversaciones mediatizadas por herramientas de comunicación asíncronas y, al tiempo, reflexiona sobre el potencial del método etnográfico para desentrañar las prácticas culturales que desembocan en actitudes racistas y de odio al otro.La autora aprovecha el objeto de estudio y el método empleado para profundizar en los siguientes tópicos:
# El método y las estrategias de investigación. La autora problematiza sobre el acceso a la muestra y la elección de los foros que serán objeto d estudio.
# La ciber-temporalización (temporalidades en terminología sartreriana) y la secuencia de investigación como esencia de lo etnográfico cuando el campo de estudio se traslada al ciberespacio.
# Las traslaciones entre el análisis de discurso y de contenido desde un enfoque estructural (categorial) en el campo físico y el virtual, con los recursos existentes en el lenguaje y “aparataje” informáticos.
# El artículo culmina con una discusión dialógica sobre el enfoque Pierre Bourdieu del capital social, los hábitos y sus derivadas al ámbito del poder.Estas pueden ser, pues, las dimensiones sobre las que iniciar la discusión de esta interesante aproximación etnográfica al estudio del racismo en la red.

Paul Virilio: fontes

Entrevista, aqui. Mais uma. No Brasil, no Estadão. Outra, no Le Monde.

Textos:
Esperar lo inesperado
Paul Virilio

“El siglo XVII fue el siglo de las matemáticas, el xviii el de la física y el xix el de la biología. Nuestro siglo XX es el siglo del Miedo. Se me dirá que el miedo no es una ciencia. Sin embargo, la ciencia tiene una utilidad, aun cuando sus avances teóricos más recientes la hayan llevado a la propia negación y sus perfeccionamientos técnicos amenacen con destruir la Tierra entera. Si el miedo mismo no puede ser considerado como una ciencia, no hay duda de que sea entonces una técnica”, escribía Albert Camus en 1948. Por mi parte añadiría que desde entonces el miedo ha devenido, si no un Arte, un arte contemporáneo de la destrucción mutua asegurada, en todo caso sí una cultura dominante.

En efecto, desde los siglos XVIII y XIX, la historia ha conocido una escalada de los extremos en la cual Clausewitz se hizo el analista de la guerra. Este crescendo, que llegaría al equilibrio del terror entre el Este y el Oeste a lo largo del siglo xx, no se le ha dado su justo valor con relación a la paz, a esta paz de disuasión que hoy sostiene la cultura mediático-masiva en su totalidad.
De hecho, de un arte otrora sustancial caracterizado por la arquitectura, la música, la escultura y la pintura, la época postmoderna progresivamente ha derivado en un arte puramente accidental que la crisis de la arquitectura del mundo contemporáneo prácticamente ha hecho coincidir con la crisis de la música sinfónica. Estas derivaciones han acompañado el surgimiento prodigioso no sólo de la foto-cinematografía y de la radiofonía, sino sobre todo de la televisión (audiovisual), la cual finalmente ha subvertido todas las formas de la representación artística, gracias a esta repentina presentación en la que el tiempo real la sobrepone definitivamente al espacio real de las obras mayores, tanto de la literatura como de las artes plásticas.

Si, según Hegel, “la filosofía es una época puesta en ideas”, hay que decirlo: la idea fija del siglo XX ha sido la de la aceleración de la realidad y no sólo la de la historia, denunciada por Daniel Halévy en 1947.

Velocidad y política ayer, con el futurismo, el fascismo y el turbo-capitalismo del mercado único; de ahora en adelante, velocidad y cultura de masas. Si “el tiempo es oro”, la velocidad-luz de la ubicuidad mediática se ha convertido en el poder de atemorizar a las hordas subyugadas.
Al inicio mismo del siglo XXI la principal cuestión política no es la de la guerra fría y su debacle olvidada, sino la de la emergencia de este pánico frío donde el terrorismo, en todas sus formas, no es sino sólo uno de sus síntomas.

Igual que el terror incontrolable, el pánico es irracional, y su carácter tan a menudo colectivo revela claramente su propensión a devenir, tarde o temprano, un hecho social total.
Por su repetición (a menudo programada), los trastornos pánicos de una población se vinculan a los fenómenos de la expectación, a la ansiedad de una depresión frecuentemente embozada en los hábitos de la vida cotidiana. Lo que denomino “frío pánico” se relaciona con este horizonte de expectación de una angustia colectiva, en el cual uno se afana en esperar lo inesperado en un estado de neurosis que demerita toda vitalidad intersubjetiva y que desemboca fatalmente en un estado de disuasión civil, la joya lamentable de la disuasión militar entre las naciones.
“Obedecer a ojos cerrados es el comienzo del pánico”, constataba ya en 1953 Maurice Merleau-Ponty. “En este mundo donde el desmentido y las pasiones morosas tienen rango de certidumbre, uno lo que menos procura es mirar”.

Ilustrciones de Sergio BordónEnunciado por el fenomenólogo de la percepción, este atestado cobraba valor de advertencia en un periodo de la historia que se comprometía no con un minuto, ¡sino con un siglo de falta de atención!

Con la “teleobjetividad”, nuestros ojos no sólo quedan cerrados por la pantalla catódica, sino sobre todo porque ya no intentamos mirar, ver alrededor, ni siquiera frente a nosotros, sino únicamente allende el horizonte de las apariencias objetivas, y es esta fatal falta de atención lo que provoca la espera de lo inesperado; paradójica espera compuesta a la vez de la avaricia y de la ansiedad que el filósofo de lo visible llamaba pánico.

Pero este término compuesto trae consigo otra categoría de la época del discurso inaugural de Merleau-Ponty: la disuasión. Si el siglo XX es el siglo del miedo, lo es igualmente de la disuasión atómica que, en el transcurso de los años 1950-1960, instala esta técnica del “equilibrio del terror” y hace decir a Albert Camus: “El largo diálogo de los hombres se acaba de detener. Un hombre que no puede ser persuadido es un hombre que tiene miedo.”

Al abundar en esta evidencia, el futuro premio Nobel agrega: “Es así que al lado de gente que ha dejado de hablar, se instaló y se instala aún, una inmensa conspiración de silencio, aceptada por aquellos que tiemblan y provocada por esos otros interesados en suscitarla: no se debe hablar de la purga de los artistas en Rusia porque de ello se beneficiaría la reacción. Ya decía yo que el miedo es una técnica.”

Es así que a la mitad de un siglo impío, la técnica del pánico desembocaba en el arte de la disuasión, no sólo estratégica sino también política y cultural, entre el Este y el Oeste de un mundo amenazado de extinción. Ese “mundo donde el desmentido y las pasiones morosas tienen rango de certidumbre”, ese que algunos bien pensantes, junto con Sartre, llamaron “de compromiso”. El mundo del arte contemporáneo que desde el “realismo socialista” a su tiempo iría a derivar en esta “cultura pop” y en el realismo de un mercado del arte que señorea el comienzo del tercer milenio.

A final de cuentas, todo comenzó cuando los pintores abandonaron el estudio del motivo y acudieron a sus talleres como en la época del clasicismo académico.

Después del impresionismo o, más exactamente, después de la primera guerra mundial, el arte moderno fue enmarcado en el pánico que azoraba a la Europa expresionista y que, después del dadaísmo, vio surgir el surrealismo. Podríamos extender esta rápida valoración del desastre a la filosofía europea: el descrédito de la fenomenología, la desaparición de Husserl y el éxito del existencialismo, este período articulador que surgió entre las dos guerras mundiales y encontró su consagración en los años de 1950 antes evocados con el fin del diálogo entre los hombres y sobre todo con el olvido: la pérdida de la empatía no sólo respecto al otro, sino respecto de un entorno humano desertificado por la aniquilación de esas incursiones aéreas que, de Guernica a Hiroshima, pasando por Coventry, Dresden o Nagasaki, desorientaron nuestra visión del mundo; que extraviaron la percepción a posteriori que vinculaba, desde hace dos mil años, el conjunto de la cultura occidental.

Pero, además de esta “aeropolítica” de una exterminación masiva de ciudades que pondrá fin a la geopolítica continental –desprendimiento de retina de una cultura que ya anticipa la desterritorialización económica de la globalización–, se debe señalar también la repentina multiplicación, desde el siglo xix con el progreso de la astronomía popular cara a Camille Flammarion, de los telescopios que habrían de prefigurar la modificación del punto de vista ocasionado por el surgimiento de la televisión doméstica, ella misma favorecida en el transcurso del siglo XX por el lanzamiento de los satélites de comunicación.

Ver sin ir a ver. Percibir sin verdaderamente estar… Todo ello subvertiría el conjunto de los diversos fenómenos de representación plástica o teatral, y hasta la democracia representativa, ella misma amenazada por los medios de comunicación que modelarían la democracia estandarizada de la opinión pública, esperando confluir con la democracia sincronizada de la emoción pública que arruinará el frágil equilibrio de sociedades, por decirlo así, emancipadas de la presencia real.

En un mundo de desmentido y de disuasión general, a partir de lo cual se busca más ver que ser visto en ese preciso instante, ante la aceleración de una realidad común que no sólo nos rebasa de manera tiránica, sino que sobrepasa literalmente toda evaluación objetiva y, por lo tanto, todo entendimiento, quien dice “Gran Óptica” transhorizontal dice también “Gran Pánico” transpolítico.

en un depósito de cadáveres, Maurizio Cattelan, quien se dice “artista por acaso”, declara: “He manipulado muertos y he percibido su distancia, su sordera impenetrable. Gran parte de lo que he hecho después proviene de esta distancia.”

Después de la cuestión de la ausencia de un plazo en el cual realizar la instantaneidad, volvemos a encontrar la cuestión de la distancia respecto a la ubicuidad, pero en una perspectiva inversa: lo que cuenta a partir de ahora ya no es el punto de fuga en el espacio real de una escena o de un paisaje, sino sólo la fuga ante la muerte y su punto de interrogación en una dimensión de tiempo real en el que la pantalla catódica usa y abusa de lo directo, “la muerte en directo” y su cortejo de desastres en repetición.

Así, tras la abstracción, el monocromatismo de un Yves Klein y el advenimiento de una pintura sin imagen, cuando ya nada nos puede alcanzar, nada nos puede tocar verdaderamente, uno ya no espera el hallazgo del genio, la sorpresa de la originalidad, sino únicamente el accidente, la catástrofe del fin. De allí la influencia secreta, desde el expresionismo (alemán) o el accionismo (vienés), del terrorismo, como si Jerónimo Bosch y Goya convalidasen los excesos del crimen.
Hagamos notar que a finales de 2004 se abría, en la Kunstwerke de Berlín, la severamente criticada muestra De la representación del terror: la exposición raf”, en la que el concepto era, sobre la base de las obras de tres generaciones de artistas: Joseph Beuys, Sigmar Polke, Gerhard Richter, Martin Klippen Berger y Hans Peter Feldman, la denuncia del autoproclamado mito de la Rote Armee Fraktion (Facción del Ejército Rojo), en las que la danza macabra alineaba los nombres, los rostros y los cuerpos de los terroristas con los de sus víctimas… Extraño procedimiento que recuerda singularmente la puesta en repetición de las secuencias televisivas.
De hecho, el “dolorismo” del arte contemporáneo proviene de la profanación ya no del arte sacro de los orígenes, sino más bien del arte profano de la modernidad, ese momento (crítico) en el que la re-presentación cede a la ilusión lírica de una simple y pura presentación. Donde “el arte por el arte” desaparece ante este arte total de la teleobjetividad multimediática, sucesora de los artificios de un séptimo arte (cinematográfico) que pretendía contener las otras seis.

He aquí esta obscenidad de la ubicuidad en la que el academicismo “postmoderno” sobrepasa a todas las vanguardias, con excepción de la correspondiente a un terrorismo de masas, en la cual la serie televisada actualiza el hecho en lugar y a costa de los actos de la tragedia antigua.
Se impone aquí un paralelo entre el ateísmo de la postmodernidad, suerte de deidad laica, que se añade “reemplazando lo que destruye y que comienza por destruir aquello que reemplaza” y el ateísmo de la profanación del arte moderno en beneficio exclusivo de un culto del reemplazo, que posee todas las características del iluminismo –ya no el de la revolución enciclopedista de las Luces, sino el de una revelación multimediática que extermina toda reflexión representativa en favor de un reflejo pánico para un individuo en quien el relativismo (ético y estético) desaparece de repente ante ese virtualismo de sustitución del mundo actual de los hechos y de los sucesos revelados.

Si, hoy en día, el teólogo discute un “ateísmo que pretende suprimir hasta el problema que había hecho surgir a Dios en la conciencia”, el crítico de arte contemporáneo debate sobre un “antropoteísmo” que habría de suprimir, hasta el origen del arte moderno, su libre expresión ya no figurativa como ayer, sino geográfica y pictórica (de donde resulta la prohibición iconoclasta de los cuadros en numerosas galerías de arte).

A finales del siglo pasado, Karol Wojtyla declaraba: “El problema de la iglesia universal es encontrar cómo hacerse visible.” Al inicio del tercer milenio este problema es extensivo a toda representación.

“estamos doquiera que ustedes miran. Todo el tiempo y en todo el mundo.” Este eslogan publicitario de la agencia Corbis, fundada en 1989 por Bill Gates con el afán de monopolizar la imagen fotográfica, ilustra el gran pánico de las representaciones en la era de la dilatación escópica.

Si, para unos, el objetivo es ver todo pero también poseer todo, para los anónimos de la multitud la pretensión es solamente ser vistos.

Cuando uno se entera de que esta agencia reúne los archivos fotográficos de los museos más prestigiosos, se imagina la importancia reciente de su presentación en tiempo real y el discreto descrédito de las obras reales.

Lo que no había confluido todavía con la reproducción industrial de las imágenes por Walter Benjamín, literalmente explota con la “Gran Óptica” de las cámaras en internet. La televigilancia deviene la vigilancia a distancia del arte mismo.

Ante esta aceleración de la realidad, el nuevo telescopio ya no observa la expansión del universo, el Big Bang y sus nebulosas distantes, sino el estallido terrenal de la esfera de las apariencias sensibles, de los datos a la vista en el instante de la mirada.

He aquí la revelación multimediática que sobrepasa la enciclopédica revolución de las Luces; he aquí este “iluminismo” de las telecomunicaciones que suprime el icono pictórico, pero también la importancia crucial de lo percibido de visu e in situ, para beneficio exclusivo de una cobertura en directo del campo perceptivo.

“En un universo digitalizado, ofrecemos soluciones visuales creativas. El objetivo es para nosotros dar a un mensaje el más fuerte impacto posible”, dice Steve Davis, director de la agencia Corbis.

Uno entiende mejor, entonces, la intención de la creación visual/audiovisual, de la puesta en repetición de las secuencias pánicas del terrorismo o de las catástrofes naturales o industriales, ese replay del que abusan sistemáticamente las cadenas de televisión, ese deporte de contacto que lucha contra la apatía de un telespectador que no espera sino lo inesperado para salir un poco de su letargo, de esa falta de atención que ha reemplazado en él la vigilia y sobre todo el interés práctico por todo lo que sucede en su entorno inmediato. ¿Cómo sorprenderse; cómo, en última instancia, escandalizarse de la agresividad de una violencia convertida en costumbre en todos los niveles de la sociedad, cuando la empatía misma, hermana gemela de la simpatía por el prójimo, ha desaparecido del horizonte al mismo tiempo que la fenomenología de la que era núcleo?

Demasiado impresionista sin duda. ¿Tal vez poco motivante para suscitar la acción? Desde entonces el “espectáculo vivo” reemplazó a la danza y al teatro.

En el origen, el término empatía poseía el sentido primigenio de tocar y remitir al contacto físico con los objetos sensibles. Con Edmund Husserl el término habría de designar el esfuerzo de percibir y asir la realidad que nos rodea en todos sus fenómenos, en todas las formas en las que ésta se manifiesta. De allí la importancia, a principios del siglo XX, de la obra clave de Worringer: Abstraktion und Einfühlung (Abstracción y empatía).

Uno entiende a qué punto hoy la teleobjetividad nos hace perder este contacto inmediato y este tacto que favorecía no sólo la civilidad de las costumbres, sino toda la “civilización”, en beneficio del impacto de un terror creciente; este terror que bien puede tanto enmudecer como enceguecer, y del cual uno de los sobrevivientes del bombardeo de Hamburgo en 1943 debió reconocer con amargura: “Fue entonces que fui iniciado en el conocimiento de que mirar es padecer y de inmediato fui incapaz de mirar y de ser mirado.”

¡He aquí, pues, este pánico a ojos cerrados señalado por Merleau-Ponty al inicio de la era de la Gran Disuasión!

Pero en este inicio del nuevo milenio, donde el desempeño de la comunicación instantánea suplanta la sustancia de la obra, de todas las obras –pictóricas, teatrales, musicales–, donde la analogía desaparece ante las proezas de la digitalización, el Gran Pánico es el de un arte contemporáneo del desastre de las representaciones, de las malformaciones de una percepción telescópica donde la imagen instrumental caza, una tras otra, nuestras últimas imágenes mentales.

*Fragmento del libro L’Art à perte de vue,París, Galilée, 2005.
Traducción de Andrés Ordóñez

NA GENÔMICA E NO MITO: AS ORIGENS DISCURSIVAS QUE TENTAM DEFINIR O LUGAR DA RAÇA

Nos sites pesquisados aparecem dois tipos de relações discursivas: ora se articulam a referências que se pretendem científicas, por se valerem de uma gramática biologista, ora se associam a “verdades absolutas” (ELIADE:1992:108) cifradas em códigos simbólicos demarcados numa atmosfera profundamente mítica, estabelecem condições para que seu léxico se pretenda irrefutável. O discurso racista regula, seleciona, organiza, redistribui e articula poderes e perigos: a supremacia racial branca está no epicentro das discussões acerca dos poderes e a ameaça de sua extinção, em particular pela possibilidade de casamentos inter-raciais ou por adoção de crianças negras, emoldura as discussões a respeito dos perigos. Impera um direito de falar privilegiado ou exclusivo, exercido apenas pelos responsáveis dos sites, geralmente líderes de movimentos “que lutam pelos ideais da supremacia ariana” (EM, NA, V88), ou por militantes destes movimentos, freqüentemente para narrar como se descobriram portadores do “precioso sangue” (3W), e como esta descoberta transformou sua vida, afastando-os dos perigos que envolvimentos afetivos com judeus ou negros apresentariam. Os sites delimitam tabus: qualquer tentativa de se tecer um mínimo elogio a negros e judeus, em fóruns ou listas de discussão, provoca reações fortíssimas, muitas vezes expulsões

mais Deleuze…

“A tribo-raça só existe no nível de uma raça oprimida, e em nome de uma opressão que ela sofre: só existe raça inferior, minoritária, não existe raça dominante, uma raça não se define por sua pureza, mas, ao contrário, pela impureza que um sistema de dominação lhe confere. Bastardo e mestiço são os verdadeiros nomes da raça.”


Deleuze e Guattari, Mille Plateaux, 1980, p. 470 – vol. 5, p. 50, da edição brasileira