Etnografia no Virtual

um olhar antropológico na WEB

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Tirando os óculos e as lentes de contato?

Publicado no Site da Revista Caros Amigos, em 8 de junho.
por Adriana Dias
A presente reflexão tenta se centrar na relação entre estudantes, imprensa e Estado. Os estudantes da USP (mas, o movimento amplia-se para todas as Universidades Públicas Paulistas), a imprensa é a grande mídia (em especial a conduzida pela Globo, pela Folha de São Paulo, pelo Estado e pela Veja – nesta em especial o blog do colunista Reinaldo Azevedo1) e o Estado é o paulista, neste início de “gestão” do governador José Serra. Não pretendo dar conta da relação, nem esgotar o assunto, mas gostaria de problematizar como os estudantes são tratados pela grande mídia, pelo governo, em suas comunicações a esta mesma mídia. A situação está a tal ponto absurda, que no Observatório de Imprensa, o jornalista, pós-graduado em Ciências Sociais, pela USP, Luiz Weis comentou: “Dá vontade de ocupar as redações da Folha e do Estado em protesto contra a lastimável cobertura da crise aberta nas universidades públicas paulistas, em especial na USP, pelo decreto do governador José Serra de 1º de janeiro, que “organiza a secretaria de Ensino Superior e dá providências correlatas2”… Esta observação revela como o evento da ocupação da USP por estudantes, em 3 de maio último, divide a imprensa: há a grande mídia, que deseja intervenção policial na USP, contra os “vândalos”, “mentirosos”, “vagabundos”, “remelentos”, para citar apenas algumas das formas como a imprensa se dirige a estudantes, que, diga-se de passagem, conquistaram o “status” de estudantes da USP, por meio de um processo vestibular que se encontra entre os mais difíceis do país, há uma outra mídia que reclama o direito à desocupação pacífica pautada ela negociação e pelo diálogo com a reitora, nunca com os policiais.
O governador José Serra, ainda que nas últimas horas tenha se pronunciado “a favor da desocupação pacífica”, talvez diante da enxurrada de críticas que recebeu desde que o estopim da ocupação da Reitoria pelos alunos explodiu seu ideal de governo exemplo-perfeito-garantidor-de-eleição-presidencial, a primeira postura de José Serra foi a de criticar duramente os alunos, atribuindo seu ato ao “desejo de agitar” e baseado em “mentiras”. A este comentário acrescentou o seguinte, legitimando-o por ter sido presidente da UNE: “Fazíamos agitação. Estávamos baseados em posições políticas, em teses que podiam ser discutíveis, mas eram verdadeiras. Não estavam baseadas em miragens e mentiras”.
A Folha de São Paulo adota a postura de encarar a ocupação como “uma invasão”, e dispara no sensacionalismo das fotos, mostrando helicópteros da Polícia Militar sobre o prédio da reitoria”, fotos do comandante da operação, com sugestões de como os jovens devem se proteger de um provável confronto: “é preciso evitar óculos e lentes de contato”. Na verdade, é a própria folha que parece evitar “óculos e lentes de contato” no seu confronto com a verdade: várias vezes avisou que o patrimônio havia sido destruído ou documentos teriam sido extraviados, para ser desmentida por fotos e testemunhos postados pela Internet afora. Nasce uma nova arena de debate, e a possibilidade de ver fotos e filmes, disponibilizados pelos estudantes, parece ter esvaziado, pelo menos um pouco, a possibilidade de “se inventar qualquer coisa pelo discurso”, como um jovem postou num comentário.
A ocupação da reitoria, ato a que eu credito a condição de legítimo, de pacífico, de preservador, da Universidade Pública e dos direitos constitucionais garantidos, se instala como uma resposta a um Executivo que insiste em governar por decretos, e enquanto o faz, precariza as condições educacionais, se recusando ao debate e ao diálogo. Diálogo e debate amplamente aberto aos estudantes, que exibem na Internet sua pauta de reivindicações, as críticas que recebem, as monções de apoio que lhe são dadas.
Fala-se, nos portais que se afinam com a fala do governador, que as Universidades públicas são elitizadas, ignorando o grande número de alunos pobres que nelas entram, vencendo a lógica de exclusão do ensino público fundamental e médio, fala-se que eles são “um povo apartado da realidade”. Pede-se por um grande líder, que use da força e os faça calar. Diz Hannah Arendt: “o povo, em todas as grandes revoluções, luta por um sistema realmente representativo, a ralé brada sempre pelo «homem forte», pelo «grande chefe».[…]”. Esta imprensa não é a voz do povo. É a voz da ralé. Os estudantes lutam pelo povo, querem ampliar o debate acerca da educação pública de qualidade para evitar que, no estado de São Paulo, a universalização do ensino superior se mescle com a depredação absoluta, como aconteceu ao ensino médio e ao fundamental durante todos estes anos de governo “desenvolvimentista”. E de quem seria culpa desta perda de qualidade? Dos nordestinos, como afirmou José Serra, ainda candidato? Claro que não: a culpa é dos que evitam “óculos e lentes de contato” para evitar ver o compromisso necessário: educação de qualidade se faz com verbas, com política públicas de valorização do professor, com incentivo à politização dos alunos, para que como estes, da USP se mobilizem, por si, pelo futuro, respeitando a aliança insolúvel, garantida constitucionalmente entre pesquisa, ensino e extensão, que os decretos visam fragmentar.
Este é um movimento popular, o vídeo do dia das mães, disponibilizado pelos alunos em seu blog3, é uma amostra de como esses alunos souberam preservar o sentido de povo. Usar de força policial é totalitário: eles questionam um ato administrativo, apontam, junto com juristas, jornalistas, sociólogos, antropólogos, filósofos, cientistas políticos, artistas, e outros intelectuais de várias s áreas, para o avanço sobre a autonomia das Universidades Paulistas. Governador, miragem é achar que vai se resolver isso com força, mentira é negar a verdade e a força de sua luta política.


1 O blog tem se dedicado muito ao assunto e considera o ato dos alunos”uma ofensa ao Estado Democrático de Direito”. http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/
2
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/blogs.asp?id_blog=3&id={C2F67501-BF58-40DB-B2EA-6E0D7EA4740F}
3
http://ocupacaousp.noblogs.org/

PROLIFERANDO INTOLERÂNCIAS

Uma análise do debate a respeito das eleições presidenciais
em duas comunidades do Orkut na Internet

Introdução
A política da mídia não se aplica a todas as formas de fazer política, mas todas as formas de política têm necessariamente de passar pela mídia para influenciar o processo decisório.[1]
Manuel Castells

Introdução
Passar pela mídia. Eis o novo desafio, segundo Manuel Castells advoga, que submete, necessariamente, todas as formas de políticas. Com o advento de novas formas de mídia, em particular àquela associada à Sociedade de Rede, surgem novas formas de comunicação e sociabilidade, e entre elas, as comunidades virtuais centram a presente discussão. A proposta é, num contínuo diálogo com a obra de Castells[2], focar e problematizar a discussão de duas comunidades virtuais, situadas no Orkut: a primeira se define como “pró-Lula”, a segunda como “pró- Alckmin[3]”. Venho acompanhando a discussão das mesmas, desde o primeiro turno para eleições presidenciais, em especial seus tópicos de debates, com o software N*Vivo, me comunicando com alguns de seus membros, por meio do Orkut, observando a contínua mudança nos nomes das comunidades, enfim, apreendendo seus discursos e transformando o mesmo em dados de análise. A questão como novas dimensões abarcadas pela democracia no pós-advento da Internet reformatam o debate político, se divide, neste texto, em três partes, na primeira a análise se centrar;a no primeiro turno eleitoral, na segunda, no período entre turnos e no pós-eleição. Na terceira parte algumas conclusões que teci ao longo do percurso. Como o texto se fundamenta em duas comunidades do Orkut, primeiramente é preciso apresenta-lo: o Orkut é uma comunidade virtual, na qual os participantes aderem por convite de outros membros, e que possibilita a discussão dos mais variados temas, relacionados a inúmeras áreas de interesse. Seu criador, Orkut Büyükkökten[4] (nascido em Konya, em 6 de fevereiro de 1977) um engenheiro de software, desenvolveu a rede social Orkut[5] como um projeto independente enquanto estudava na Universidade de Stanford. Formou-se em 1997, e adquiriu seu PHD em 2002, em Computer Science, e trabalha no Google. Em 19 de Janeiro de 2004 a comunidade virtual foi lançada, objetivando ampliar “o diâmetro social” de seus membros, como afirma em sua página de acesso, e para fazer parte dela é preciso receber o convite de um membro já cadastrado. Ao efetivar este cadastro, o novo membro é convidado a preencher um perfil, dividido em três partes, social, profissional e pessoal, a fazer upload de fotos, enfim, a operacionalizar uma página que descreva sua aparência física, suas preferências afetivas, artísticas e intelectuais, seus interesses, e a se conectar com seus amigos já membros do Orkut, ou convidados por ele. Este sistema é inspirado na teoria de Stanley Milgram[6], na qual se arquitetou que cada um de nós está a somente seis graus de separação de outro grupo de pessoas. Para alguns pesquisadores de redes sociais, e redes digitais, o Orkut seria uma prova definitiva desta teoria[7].
Após o preenchimento do perfil, parcial ou totalmente, é possível se cadastrar em comunidades já existentes, ou ainda criar uma nova. Na página de cada comunidade há espaço para seu nome, perfil, e várias outras informações. Na tabela abaixo, são dadas as informações disponibilizadas pelas duas comunidades estudadas no presente texto[8]:

Tabela Um
O perfil das comunidades analisadas

Dado
Comentário
“pró-Lula”
“pró- Alckmin”
Nome
Nome atual
Nós reelegemos Lula Presidente
Geraldo Alckmin
Idioma
Dos Fóruns
Português
Português
Categoria
Tipo de Comunidade[9]
Governo e Política
Governo e Política
Dono
Quem criou e coordena?
Alex ¹³ Piero[10]
Thierry 45 Besse – Moderador[11]
Data de criação

23 de Junho de 2005
26 de Agosto de 2004
Membros
Número
108.243
154.725
Fórum

Público e não-anônimo
Público e não anônimo[12]
Número de Tópicos
Fóruns abertos
29215
32615

As comunidades se descrevem da seguinte forma no perfil: Comunidade Pró-Lula:
É LULA DE NOVO COM A FORÇA DO POVO!
“Reconheço que Deus tem sido generoso comigo. Mais do que mereço. Eu pedi forças… ” Leia o restante do final do discurso de posse de Lula no Congresso Nacional aqui: http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=2826730&tid=2507636837857477484

FIM DA ENQUETE
Vitória do atual nome, Nós reelegemos Lula Presidente com 61,98% dos votos, contra 38,02% para o nome “Nós apoiamos Lula Presidente”. Parabéns a todos pelo ato democrático!
Mensagem de Lula para nós
http://www.lulaorkut.has.it
Bate-papo da comunidade
http://www.batepapo.has.it
Adesive sua foto
http://www.iapes.com.br/lula/upload.php
Comunidade na imprensa
http://www.imprensa.has.it
Vídeos
http://www.lulavideos.has.it
Convide seus amigos
http://www.convite.has.it
Seus amigos que estão conosco
http://www.aquiconosco.has.it
Fatos que merecem destaque
http://www.pedalaoposicao.blogspot.com
Perguntas freqüentes
http://www.perguntas.has.it
Moderação compartilhada
http://www.moderacao.has.it

Já a descrição da comunidade “pró-Alckmin” informa:
Comunidade oficial de apoio a Geraldo Alckmin.
A MAIOR COMUNIDADE DE GERALDO ALCKMIN NO ORKUT –
Convide seus amigos ¤
http://www.orkut.com/CommInvite.aspx?cmm=316707
Fundador do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira) em 1988.
1972 – Eleito Vereador de Pindamonhangaba
1976 – Eleito Prefeito de Pindamonhangaba
1982 – Eleito Deputado Estadual por São Paulo
1986 – Eleito Deputado Federal por São Paulo
1990 – Reeleito Deputado Federal por São Paulo
1994 – Eleito Vice-Governador de São Paulo
1998 – Reeleito Vice-Governador de São Paulo
2002 – Eleito Governador de São Paulo
2006 – Candidato a Presidência da República Brasileira
Pré-candidato a Presidência da República em 2010
Sem UNIÃO não se vence eleição!

Nesta primeira observação, podemos notar um fenômeno discutido por Castells, a “dimensão tecnológica” que se relaciona com a sociedade em rede, e as reações comunais desenvolvidas a partir desta nova estrutura social (CASTELLS: 1996, 366). São as comunidades que apóiam, denunciam, fazem campanha, reelegem, são elas que se pretendem como uma força de influência no que Castells denominou de “política informacional”. Segundo este autor este compartilhar contínuo entre a tecnologia e a política, evidente no discurso das comunidades analisadas neste ensaio, permitem “a criação de novas regras do jogo” (CASTELLS: 1996, 367), por interagirem profundamente com transformações radicais no âmbito social, cultural e político. A própria essência da política, segundo Castells é afetada, pois colocaria “a direita, a esquerda e o centro” no mesmo embate tecnológico: é preciso atingir os cidadãos também pelos meios midiáticos. Esclarecendo que não advoga por uma teoria que vê na mídia uma força impositora da qual não se poderia escapar, nem no receptor um sujeito passivo diante da mesma, Castells destaca, de maneira precisa, “o papel crucial da mídia eletrônica na política contemporânea”, que se revigorou com as crises dos sistemas políticos tradicionais e da capilaridade dos novos meios midiaticos, formatando assim um novo modus operantis no qual “as informações política são capturadas no espaço da mídia”.
Nesta mesma direção Mark Pôster discutiu a intima relação entre política e tecnologia na Internet, e para o autor a Web é responsável não apenas por instituir novas funções sociais mas também por desafiar nossa existência teórica aproximando-se de questões como a restrição ou expansão da sobrevivência dos ramos executivo, legislativo e judiciário do governo por permitir inusitadas formas de participação política. Pôster também advoga a idéia de que a rede estaria modificando o próprio lugar do debate político, discutindo a esfera pública, retomando idéias de Habemas[13]
O assunto da esfera pública está no coração de qualquer reconceituação de democracia. Relações sociais contemporâneas parecem estar desprovidas de um nível básico de interatividade prática que, no passado, foi a matriz da democratização política: locus tal como o ágora , a prefeitura da Nova Inglaterra, a Igreja da aldeia, o café de casa, a taverna, a praça pública, um celeiro conveniente, um salão, um parque, uma sala de refeições, e ainda a esquina. […] Por muito tempo, teorias críticas têm insistido em uma esfera pública, lamentando o fato da “interferência” da mídia, a indiferença do primeiro rádio e então o papel da televisão na política. Mas o fato é que o discurso político tem sido por muito tempo mediado pelas máquinas eletrônicas: o assunto agora é que as máquinas possibilitam novas formas de diálogo descentralizado e criam novas combinações de homem-máquina reunidos, novas “vozes” individuais e coletivas, “espectros”, “interatividades”, que são os novos blocos construídos de formação política e agrupamentos.

Mediado pelas máquinas, o discurso político das comunidades do Orkut que fenecem os dados desta pesquisa, é o tema, complexo que pretendo ler. Neste contexto teórico é possível desenvolver uma apreensão não apenas deste discurso revelado no perfil das comunidades, mas também e principalmente, como elas reagiram nos diversos momentos: na confirmação do evento do segundo turno, no episódio do “dossiê”, na eleição do presidente Lula, e no período pós-eleitoral. É preciso também pensar a respeito do impacto que as tecnologias de informação e comunicação exercem sobre a própria investigação acerca do tema, pelas ciências sociais, inclusive sobre a maneira de construir a teoria social, segundo o que escreveu Tom Dwyer, também por permitir a publicação e a divulgação de dados e disponibiliza-los de maneira mais ampla e rápida, por disponibilizar bases de dados e fontes de investigação em formato digital, da qual estas comunidades do Orkut são um exemplo, e por fim por propiciar a análise dos dados por meio de software, como o utilizado na presente pesquisa, que permitiram a sistematizam dos dados e identificação de como as comunidades se referem uma a outra, simplificando muitíssimo esta tarefa. Tais mudanças entre outras (DWYER: 2004, 325-333) deixam marcas no presente texto e facilitam minhas questões de análise: quais discussões aconteceram nas comunidades, como se deram as mesmas? Como uma comunidade se referia a outra? Como discutiram os temas que geririam esta eleição presidencial? Como se deu o fluxo de seus membros, ou seja a entra e saída de participantes? É na tentativa de problematizar estas questões que o presente trabalho se inicia.

Preparando o primeiro turno

A comunidade “pró-Alckmin”, formada antes mesmo de se confirmar a candidatura de Geraldo Alckmin como presidenciável, começa exatamente por este debate, que discute em 34 tópicos a candidatura do mesmo, preferindo-o a Serra, e salientando suas virtudes pessoais e políticas, como garantias de vitória[14]. Foram ao todo 412 postagens numa comunidade que já possuía cerca de 140.000 membros.
”Nestes tópicos o nome de Lula aparece diretamente quinze vezes, ao em diversas expressões: é preciso “chutar fora a corrupção/Lula/PT”, a comunidade informa, por meio de seus membros: “nao basta o Lula ter continuado o mesmo modelo porco de governo de FHC, e ter feito muito pior”. Sem se dar conta que Geraldo Alckmin é exatamente do mesmo partido que Fernando Henrique Cardoso. É importante lembrar que este fenômeno concorda com a teoria de Castells que aponta uma grande reestruturação da política, pelo processo de “personalização dos eventos” (CASTELLS: 1996, 380). São os políticos os atores do drama. Então não importa o partido: “eu voto é no candidato” afirmam 216 membros da comunidade, durante os tópicos. Jaime, um dos membros, informa-nos, em 23 de janeiro de 2006: “melhorar as estradas federais que estão um verdadeiro caos, pois o Lula não fez nada, também só anda de avião, para que asfalto?” Esta seria uma tarefa do “experiente governador de São Paulo”, segundo André que concorda com a habilidade do mesmo em resolver problemas de estrada… E Jaime acrescenta: “Geraldo não deixará as estradas do Brasil como o Lula, deixou, pois Geraldo é competente”. Na infovia, toma-se partido claramente, como o faz, Alllysson: Eu voto no Alckmin desde Outubro de 2005, quando vi na tv que ele diminui o imposto no estado de São Paulo, e o estado cresceu. Acredito que ele terá capacidade de fazer isso também no Brasil, já o Serra, gostei muito do trabalho dele, quando foi ministro da saúde, mas as palavras ditas por ele, na candidatura de São Paulo(ficarei 4 anos, como prefeito), será instrumento para o Lula, chamá-lo de mentiroso. Eu acho que se for o Serra, será fácil para o Lula, e mais 4 anos de Lula , fala serio…” Nota-se que as pessoas são mais importantes que idéias, segundo apontava Castells, o que fica mais claro na medida que gradativamente a eleição se aproxima: se no início ainda aparecem estradas e educação, posteriormente vai se formando, nas comunidades um perfil de seu candidato e um perfil de seu concorrente. Já nesta fase a comunidade que apóia Geraldo Alckmin denomina Lula de sapo várias vezes, ou de corrupto, ou de cego. E também o observa como um candidato muito dificil de ser derrotado. Informa-nos Allysson:
Um importante dirigente do PSDB dizia, há tempos, que o candidato do partido à Presidência da República seria escolhido por um critério simples: se a eleição fosse muito fácil, Fernando Henrique. Se fosse fácil, mas nem tanto, José Serra. Se fosse difícil, Geraldo Alckmin. Se fosse muito difícil, o candidato seria algum tucano de fora de São Paulo. Para o PSDB, a eleição, pelo jeito, está difícil. É, portanto, a hora de Alckmin. A análise do dirigente tucano tem, além do tempero da maldade, uma certa lógica. Serra tem mais três anos de mandato como prefeito; se sair e perder a eleição, fica sem nada. Já Alckmin está terminando seu período de governo. Está disposto, portanto, a correr mais riscos eleitorais do que Serra. E o prefeito paulistano, como não disse oficialmente que é candidato, pode simplesmente ficar no cargo, sem precisar desistir de uma campanha na qual não disse que entrou.

Se a discussão é acerca de quem poderia ser o vice de Geraldo Alckmin, os membros são taxativos:
“Eu prefiro José Agripino por três motivos: 1. está desempenhando muito bem o papel de líder do seu partido no senado; 2. É mais carismático do que Bornhausen; e 3. Acrescentaria mais à chapa em termos regionais, pois ficaria o candidato a presidente do sudeste e o vice do nordeste, ressaltando que é na região nordeste aonde Lula tem o seu melhor desempenho eleitoral e um candidato a vice na chapa contrária pesaria no momento da escolha. Por tudo isso, acho que José Agripino acrescentaria mais como candidato a vice”. (postado por Henrique)

Uma forte rejeição a Lula se manifesta, e dados que apóiam este posicionamento, são fartos nos tópicos:
” Mas o presidente continua a enfrentar problemas sérios de rejeição, apesar de ter melhorado também nesse quesito. Hoje são 53% os que consideram que ele não merece uma segunda chance, enquanto 45% apóiam a reeleição. Mas esse número já foi pior: em dezembro do ano passado, a reeleição de Lula chegou a ter a rejeição de 61% do eleitorado. Atualmente, o índice dos que não votariam nele de maneira alguma está em 31%, enquanto os que já decidiram votar é de 34%. “

Como teorizou Castells o papel da Internet em difundir informação é eficaz e inquestionável, tanto que o comentário acima provocou um tópico com 116 postagens na outra comunidade, que defendia o presidente, como o candidato do povo. Outro tópico é abertto na comunidade “pró-Alckmin” e nela Márcia adverte: “Lula é de longe o candidato mais conhecido do eleitorado, mais conhecido até mesmo que Serra, e está sozinho na raia neste momento. O governador Geraldo Alckmin é o menos conhecido de todos, sendo que uma parte da população diz que nunca ouviu falar dele.” E são candidatos que ganham ou perdem eleições, nunca idéias ou propostas de governo: “Saibam que tanto Alckmin quanto Serra terão boas chances se nossos palanques estaduais forem fortes. Do contrario o Lulão levara a eleição.” Castells discute esta “personalização”num contexto que engloba: “a) o declínio dos partidos políticos, bem como do papel por eles representado na escolha de candidatos; b) o surgimento de um complexo sistema de veículos de comunicação […]; c) o desenvolvimento do marketing político”(CASTELLS: 1996, 374 e 375). No debate que antecede a escolha de Alckmin como candidato à presidência da República, os três aspectos interagem na comunidade, de forma evidente e precisa. Os dados também concordam com a idéia expressa por Pôster acerca da comunicação política na rede: “o que está em jogo é a solicitação direta para a construção de identidades no curso das práticas de comunicação. Usuários inventam sobre si próprios e fazem isso repetida vezes e de diferentes formas ao longo da conversação ou mensagem eletrônica.” Muitos perfis trazem fotos do candidato no lugar do participante, ou de seus aliados. Identidades são fabricadas, mensagens são abundantes: a idéia é produzir ao máximo. Isto nos recorda Wolton: “o cidadão é um gigante em matéria de informação” e nas comunidades, discordando deste autor, não é um nanico em ação, porque posta, cria tópicos, invade a outra comunidade com um perfil falso, faz da rede uma verdadeira arena.
Antes do primeiro turno a comunidade “Nós votamos LULA 13”, primeiro nome da comunidade “pró-Lula”, estava com cerca de 4 mil membros. O debate era menor, apenas respondendo ao que entendia como provocação da comunidade “pró-Alckmin”, em particular quando o presidente era ofendido, por sua origem pobre,nordestina ou por sua aparência (estes elementos dão origem a cerca de 300 postagens). A única exceção se dá no debate acerca do índice de rejeição do presidente. Os tópicos criados na comunidade se destacam por discutir educação, saúde e moradia. Para comentar a respeito das propostas do oponentes as mensagens parecem bem menos agressivas, e mais elaborada:
O governo de Geraldo Alckmin continua a aprovar seu pacote de ataques à educação. Após vetar o aumento em 1%, passando por cima do aprovado na Assembléia Legislativa de LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) e de reduzir a verba da educação estadual por ao seu menor índice em quatro anos, Alckmin fez manobra orçamentária de contabilizar desconto de tarifa como sendo investimento na educação e dessa forma reduzindo o montante que de fato deveria estar sendo destinado a esta pasta. Este fraude contábil resulta em transferência de orçamento do setor de transportes para e educação, o que significa um corte brutal na magnitude de R$ 32 milhões. Para se ter um parâmetro da redução de gastos o montante é de cerca de 10% dos gastos do governo nas instalações de todas as escolas estaduais no ano de 2004. Este é, portanto mais um ataque de Alckmin a educação paulista.
E ainda:
Dados do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) demonstram que a qualidade do ensino paulista é pior que a média do Brasil. Segundo esta fonte oficial a porcentagem de alunos que se encontram nos estágios crítico e muito crítico representam 41,8% do total de alunos do estado. Ao passo que em nível nacional os alunos que se situam nestes mesmos estágios representam 5,6% do total. Portanto, levando-se em consideração este indicador relevante e oficial o desempenho da educação gerenciada por Alckmin é 86,6% pior que a do Brasil.

Claro que me restrinjo na análise de duas comunidades, e nestas a diferença parece imensa, na comunidade pró-Lula, quase não aparecem ataques pessoais, quando se dão, não se fala da pessoa Alckmin, mas de seu comportamento político, e a informação circula… Deco, por exemplo, postou:
Governo Alckmin impede 67 CPIs na assembléia paulista. Desde 2003, com a reeleição do governador Geraldo Alckmin, a Assembléia Legislativa de São Paulo não sabe o que é uma Comissão Parlamentar de Inquérito funcionando. No entanto, 67 CPIs aguardam a hora de ser instaladas: 58 estão prontas para instalação e outras nove para verificação de assinaturas. A tática da base governista é usar um mecanismo regimental que condiciona a instalação das comissões a acordo de líderes. Sem acordo sobre quais assuntos devem ser investigados, as CPIs não são instaladas. Quais são elas, por área: São 18 pedidos de investigação nas áreas de economia e tributação. A maior parte se refere às irregularidades de setores privados sobre a arrecadação de tributos, concessões de créditos para privatizações e a guerra fiscal entre os Estados. Onze pedidos tratam da área de serviços públicos como as irregularidades praticadas pelas concessionárias de telefonia fixa e móvel. Dez pedidos são ligados a questões sociais como saúde, educação, problemas ligados ao trabalho no campo e assistência social. Nove pedidos na área de saneamento e questões ambientais, envolvendo os problemas de abastecimento de água na região metropolitana, irregularidades de exploração em espaços de preservação ambiental e casos de contaminação de solo em áreas residenciais. Outros nove pedidos de investigação de irregularidades e superfaturamento como os casos da construção do Rodoanel, do rebaixamento da calha do rio Tietê, do metrô, e a construção de casas populares pelo CDHU. É esse o presidente que queremos??????
O debate apenas começava. O primeiro turno aos poucos se aproximava, e as comunidades atingiram números bem maiores: a primeira “pró-Lula”, chega perto dos 60.000 membros, a segunda como “pró- Alckmin ultrapassa os 190.000.

Um novo tratado de Tordesilhas?
Nasce o primeiro turno. Na manhã de segunda-feira novas discussões disparam na mídia. No então 2 de dezembro a mídia impressa, televisiva e na Internet questionava a divisão que parecia sugerir um novo tratado de Tordesilhas, segundo a revista Isto É Dinheiro. Informava a reportagem: “As regiões Norte e Nordeste seriam a ‘América’ de Lula. Centro-Oeste, Sul e grande parte do Sudeste são o continente de Geraldo Alckmin[15] . Depois do resultado do primeiro turno a comunidade “pró-Lula”e atingiu a marca de 114.052, e continuaria crescendo até os 300.000 participante registrados por ocasião do segundo turno. A discussão se modificara drasticamente: o resultado das urnas parecia apontar um quadro em que o Brasil se dividia em dois: O Norte e Nordeste votavam Lula, o Sul, Centro-Oeste e Sudeste no candidato Geraldo Alckmin, seu maior concorrente. As comunidades disponibilizam para seus membros a possibilidade de “adesivar”sua foto do perfil do orkut, ou seja colocar uma tarja de propaganda de Lula ou Alckmin. É interessante notar que o 13 ou o 45 sobrescrito ao lado do nome se tornou marca de muitos participantes. Entre os milhares de fóruns da comunidade, àqueles que abordariam a questão da divisão do país, são o centro desta segunda parte. A idéia expressa na afirmação de Castells, que apresenta como característica importante da sociedade informacional, ainda que não esgote todo o seu significado, “a lógica de sua estrutura básica em redes, o que explica o uso do conceito de ‘sociedade em rede'” (Castells, 1999: 46, nota 33) é de particular elucidação neste caso. E é na rede, de participantes, de respostas, e principalmente, de discussões por ambos levantadas que pretendo me deter neste momento.
Nesta ocasião o debate se aquece de maneira drástica: racismo, injurias, ofensas e palavrões são notadas nas postagens. Lula é “o nordestino maldito” (5 vezes), o “nordestino ladrão e analfabeto”(12 vezes), “candidato de pobre, preto e nordestino” (129 vezes), “fedorento”(2 vezes), corrupto (19 vezes), “cego que se faz de tonto”(2 vezes). Geraldo é o “racista” (110 vezes), “não gosta de nordestino” (4 vezes), hipócrita (140 vezes), “não gosta de pobre” (8 vezes). Neste debate os dados demonstram, inclusive pela referência que um tópico de uma comunidade faz a outra, e às datas de postagens que a comunidade pró-Lula se posicionava mais eticamente, muitas vezes apenas respondendo às provocações da comunidade “pró-Alckmin”, ainda que algumas vezes tenha provocado a primeira sempre se referindo ao candidato como “picolé de chuchu”(459 vezes), ou como tucanada (uma refer6encia ao totem partidário do candidato – 436 vezes). Mas, em nenhum dos tópicos ele foi agredido por origem étnica ou racial. Mas, agrediu-se bastante o ex-governador por sua possível vinculação com a Opus Dei: foram 349 vezes, e em muitas delas a intolerância era gigantesca: “o enviado maldito da Opus Dei”, por exemplo…
Uma outra questão,a que se denominou de “Brasil dividido”, apresentada por Diogo num fórum “pró-Lula”, é bastante interessante:
“Pq o povo da Região Sul prefere o Alckmin?”. A esta pergunta, no título do Fórum, ele acrescenta um post: “Pq o povo da Região Sul prefere o Alckmin? Queria saber o que esse sujeito fez de bom pra essa região. Pq pelo que eu saiba o Lula obteve somente 34% dos votos não foi isso? O Alckmin conseguiu mais de 60% lá. Portanto, temo que fazer mais divulgação petista lá no Sul. Pq eles preferem o Alckmin isso que eu queria saber?” A resposta, é abordada, neste texto, em cinco postagens: cinco passagens (dados filtrados pelo NVIVO),
Mariana LULA 15/10/2006 21:44 Moderador, SC, pelo menos nas últimas eleições, não foi assim… Florianópolis foi a capital com o maior número de votos para Lula… Aqui, por exemplo, a HH teve 16%, uma média, mto maior que a nacional…Acho que se o PT investisse mais por aqui, poderia arranjar parte dos votos da HH…O problema maior acho que está na candidatura do Governador… O Luis Henrique que apoiava o Lula nas últimas eleições, tá apoiando o Chuchu nessas…É um safado, traíra…Como o seu adversário Amin não vai apoiar o Lula, acabou que o Lula não tem apoio de nenhum candidato no segundo turno :… Faltou poder político…

Eduardo 15/10/2006 21:52 Infelizmente, o Bolsa Família não tem poder decisivo no Sul, até porque muitos beneficiados são influenciados pela mídia, e sempre tem parentes ou amigos (de melhores condições financeiras) que tendem pra direita. Os programas do governo do Sul foram quase todos àqueles genéricos, que existem por aqui, e em todos os lugares (exceto a duplicação da BR-101 sul em Santa Catarina, e a transformação do Cefet de Curitiba em Universidade Tecnológica Federal). Fora isso, repito, não houve nada específico para o Sul. É lógico que Farmácias Populares, maior crédito habitacional, incentivo à agricultura familiar e outros programas de alcance nacional são importantes. Mas a mídia do Sul é direitista, e os prefeitos do Sul são mais oportunistas. Na cidade onde está a maior parte de minha família (Umuarama – PR), por exemplo, a prefeitura retirou a logomarca do Governo Federal da Farmácia Popular, e o prefeito de lá, que do PPS (argh!) e apoia o Alcrime, acaba colhendo frutos para si, e para quem ele apóia. Repito, o Lula deveria criar extensões universitárias no interior dos três Estados, implantar mais delegacias da Polícia Federal, que não correspondem ao número de comarcas federais do TRF4, recuperar as rodovias federais, até para fazer frente às rodovias estaduais de lá. Se isso fosse feito, já seria muito bom. Peço muitos votos para o Lula, mas ele vai precisar de fazer propostas específicas (específicas mesmo) para o Sul.

Jorge 16/10/2006 09:04 Mateus não tem autoridade para falar do RS Companheiros, Fico pasmo que um companheiro (?) coimo o Mateus diga inverdades que não condizem com a verdade. O candidato Olívio não merece o que foi afirmado pelo rapaz. Ele não embora a Ford, como a direita e a mídia daqui tenta passar nos últimos oito anos. Na verdade, aconteceu um golpe. Sob o comando de FHC, foi aprovado um projeto que permitia ao governo baiano dar uma série de benefícios ao grupo multinacional. Olívio, na verdade, defendeu o Estado porque não poderia competir, deixando o Estado na míngua, como tinha feito o Antônio Britto. Mais: o governo Olívio foi excelente, dando prioridade para a agricultura familiar e para os pequenos e médios empresários, além de criar a universidade regional e adotar o festejado Orçamento Participativo. O que aconteceu é que a direita e grande imprensa fizeram uma lavagem cerebral na população, que parece ter afetada inclusive o Mateus.

Fabiano 16/10/2006 09:28 Sobre o Mateus! Ele disse que votava Gertaldo e perguntou se poderia postar as razões dele sobre sua intenção de voto. Muitos que estavam na sala faslaram que tudo bem… ele então se posicionou, em nenhum momento foi derespeitoso ou preconceituoso. Nós queremos decobrir e desconstruir essa amarra que colocaro no PT aí no sul para mudar a intenção de voto . Sou de São Paulo, tomasmos cacete no primeiro turno e tomaremos outro no segundo, tudo bem estamos acostumados. mas sempre comemoramos as nossas vitórias aí no sul, esse rewsulatado nos decepciona, parece que temos culpa, isso não pode acontyecer. Sem radicalismos. Até a vitória sempre.

Danilo Flavio 28/10/2006 13:38 … Outra coisa também, a maioria dos eleitores que votam em geraldo alckmin são de maior poder aquisitivo, isso todo mundo sabe … esse é um dos motivos também afinal de contas a região sul tem muitos decendentes de alemães entre outras nacionalidades que são muito ricos.

Prolongando o debate, ora responsabilizando o desempenho de Lula nos estados sulistas, pela via de justifica-lo como falta de apoio político, ora considerando como preconceito, ainda que ignorando resultados obtidos pelo candidato anteriormente, ora responsabilizando a mídia, como afirma o internauta: “Bruno 15/10/2006 21:30 Opinião de um Paulista: Mídia + Crise agrícola + Preconceito e falso moralismo (de alguns claro)”, ou, ainda,
Guilherme 15/10/2006 22:08 MINHA HUMILDE OPINIÃO: 1º Campanha fraca do PT no Sul – SC; 2º Prefeitos e Governador usaram obras federais para benefício de campanha própria. No caso dos prefeitos, o apoio à candidatos ao senado, câmara e gov. dos partidos de oposição à Lula foi forte. E muitos usaram este “artifício”. Provo: Idelí Salvati PT/SC, denunciou o TRAIDOR LHS – que se elegeu 2002 por ter apoio de Lula – por divulgar que SAMU era conquista de seu Gov. Fato. 3° Acesso rápido à informação. O que gerou o voto de protesto; 4° Em Santa Catarina o Curral é do Jorge Bornhausen – PFL. SC, em especial Fpolis é cabideiro de emprego para todo lado; 5° Fato que já denunciei aqui e reafirmo: Existe um complô fortíssimo entre unidades de ensino médio – cursinhos – que estão vendo seu IMPERIO ameaçado em virtude da facilitação do acesso às universidades particulares – Bolsa Art.170, PROUNI, Financiamentos junto à CEF. Os alunos questionam-se: Para que fazer vestibular se tenho acesso tranquilo em boas univ. particulares? A UFSC é tomada por burgueses. Os alunos tem carros MUITO superiores aos dos professores… E com certeza não trabalham: A maioria dos cursos são de período integral. E para matar: Jovens entre 16 e 24 anos são 21% do eleitorado do Sul; 6º A mídia atribui ao governo a queda na produção de grãos no Sul. Mas o gov. liberou 20bi para os agricultores. O que eles esquessem é da seca: A MAIOR DOS ULTIMOS 25 ANOS. 7º Empresário força o voto de cabresto: O Empresário Catarinense tem hábito de sonegar! Fato! Com a maior eficiência na cobrança dos tributos e impostos, muita empresa quebrou e/ou foi notificada pela receita fed.; 8º A maioria de nós aqui no Sul tem INSTRUÇÃO e não CULTURA E MEMÓRIA POLÍTICA. São coisas diferentes e que acredito que os Bahianos estão muito na nossa frente – tenho humildade para reconhecer; E para fechar minhas opiniões – acho que tem mais coisa – o BAIRRISMO. O Sul achava que o gov. Lula deveria dar prioridade para quem o apoiou com mais peso – salvo proporções. Muitos não aceitam o apoio dado ao Norte/Nordeste – BURRICE.

Note-se nos textos dos internautas como a “ação de conhecimentos sobre os próprios conhecimentos como principal fonte de produtividade”(Castells, 1999: 35), expressando o novo paradigma tecnológico, baseado na tecnologia da informação.
Já na comunidade que apoiava o ex-governador de São Paulo, a explicação se daria em outros termos:
Sou um dos milhões de portadores da carteirinha (de arrependido por ter votado no PeTralha-mor em 2002) que afirma: “Há 3 coisas que só se faz uma vez: Nascer, morrer e votar no PT”. O único espetáculo do crescimento que se vê no desgoverno do PT é o da corrupção; o discurso do Luiz Pingácio pretende semear a animosidade entre 2 grupos: 1) Os que votam nele porque recebem suas esmolas e 2) Aqueles que ele considera elite, porque têm emprego decente e não precisam de suas bolsas-esmola. Certamente há um terceiro grupo que vota nele porque não aceita a idéia de largar o osso.

Ou ainda:
Não sou nenhum idiota”, diz isso e vota no LULLALAUDRÃO, faz-me rir… quá, quá, quá…Talvez tenha razão, idiota somos nós o sul, sudeste e centro-oeste, que trabalhamos duro, das 7:00h às 18:00h, para sustentar os imbecis vagabundos do norte e nordeste, e os que aqui vivem.

É importante observar que esta forma de se referir aos eleitores do Norte e Nordeste, claramente um crime de racismo, foi exponencialmente crescente na medida em que se aproximava o segundo turno. Em 148 tópicos 673 expressões semelhantes foram organizadas pelo N*Vivo, a ponto de eleitores de Geraldo Alckmin que moravam nas regiões ofendidas exigirem respeito e ameaçarem denunciar o mesmo às autoridades, como fez Geraldo:
Pense duas vezes antes de falar no povo nordestino,lembre-se que a maioria deles aí no “sule” é que põe a locomotiva (se é que ainda há) pra movimentar, certo ?Se não fossem os nordestinos radicados nessa região, ela já teria desaparecido do mapa,ou o mapa do desenvolvimento brasileiro estaria agora de cabeça pra baixo, se é que vc me entende. Isso é crime, vou avisa a PF

Ou como o postado por Elias:
Não vou discutir com vc sobre a importância do empresariado paulista (sobretudo o paulistano) na economia nacional,mas vc há de convir q o homem mais humilde e que levantou prédios,abriu ruas e avenidas,derrubou preconceitos e tbm votou como os demais, teve e tem importância numa nação, né? Se não acha,pode perguntar a qualquer nova-iorquino e ele lhe dará a resposta (agora,ainda têm os simples bombeiros de lá para contribuírem com a fama da cidade).

O debate Sul/Sudeste x Norte/Nordeste parecia algumas vezes acontecer dentro da comunidade que apoiava o ex-governador de São Paulo. E na eleição de Lula, não faltou quem desejasse o separatismo (39 comentários)… A sugestão de um Brasil dividido parece simplista por demais, mas o debate acerca da questão serviu para revelar um lado extremamente preconceituoso presente na rede. Comunidades foram criadas para discutir o tema da integração nacional “pró-Lula” como uma resposta aos desejos explicitados pelos membros da comunidade “pró-Alckmin” mais radicais.
Outro debate marcante se deu por ocasião do episódio do dossiê[16], que gerou 467 tópicos na comunidade “pró-Alckmin” e 322 na comunidade “pró-Lula”. Nos textos postados sempre é sugerido que o presidente Lula estaria envolvido no escândalo, ou se não, é inapto demais para governar, porque permite tamanho absurdo sob seus olhos: Como enfatizou Aparecido: “Ou é ladrão, corruPTo, ou não sabe governar! Na dúvida vou de 45”. A comunidade que defendia o candidato lula exigia a divulgação do dossiê, e salientava que ele pertencia a um grande complô para evitar a reeleição do mesmo, construído pela revista Veja e pela Rede globo de Televisão. Matérias da revista Carta Capital eram copiadas na integra nos fóruns, e links para as mesmas eram postados na comunidade adversária, por membros que se infiltravam por meio de falsos perfis.
Posterior ao segundo turno, a comunidade “pró-Lula” e a comunidade “pró-Alckmin” reduziram seu número de membros. Destes, quase nenhum guardou o adesivo ou o número sobrescrito que identificava o eleitor e o relacionava a seu candidato. A primeira se destaca por discutir o programa atual de governo. A segunda em elaborar a proposta da candidatura do ex-governador para o ano de 2010. Não há quase comentários sobre todo o fenômeno racista que se observou na etapa anterior. Em que lugar ele teria sido guardado?

No caminho perguntas, foram respondidas?

A tentativa de problematizar o fenômeno eleitoral sob a ótica de Manuel Castells se revelou elucidativa e interessante. Em seu trabalho, a noopolitik refere-se às questões políticas engendradas ou suscitadas pela noosfera comunicacional que se estabelece na contemporaneidade. Para ele, a noopolitik não anula a realpolitik – “abordagem tradicional em termos de promoção do Estado na arena internacional, mediante negociação, força ou uso potencial da força” -, mas lhe pode ser contraposta. Na Era da Informação, afirma, a realpolitik se mantém, mas permanece circunscrita ao Estado, “numa era organizada em torno de redes, inclusive redes de Estados” (CASTELLS: 1996, 139). Nesta nova forma de pensar a política, emergem comunidades, como estas do Orkut, que ao debaterem, informarem, se contestarem, revelam da realidade nacional muito mais do que um período eleitoral abarcaria. Neste segundo volume de sua trilogia, “O poder da identidade”, o autor abarca idéias e análises de 25 anos de estudos a respeito dos movimentos sociais1 e dos diversos processos políticos de várias regiões do mundo, discutidas a luz da teoria da Era da
Informação. Castells examina as duas grandes tendências conflitantes que moldam a sociedade da informação: a globalização e a identidade. Pensando, pois, a sociedade em rede, no âmbito da revolução tecnológica e informacional e da nova economia,discute as características dela decorrentes: globalização da economia, flexibilidade e instabilidade do emprego, individualidade de mão-de-obra, a “realidade midiatizada”, o espaço de fluxos e o tempo intemporal. Neste trabalho a teoria de Castells se evidencia na realidade das comunidades: a força comunal personaliza a política e as próprias comunidades, que reagem umas a outras e se acreditam indivíduos: reelegem, apoiam, votam, pensam, denunciam, informam: o poder está na rede, não mais centralizado, mas disperso, no entrelaçado dos links, na possibilidade de comunicar, defender, expor, e inclusive e infelizmente desrespeitar o humano do outro. O racismo tão presente na “democracia racial” brasileira prolifera pela comunidades do Orkut, num convite claro a um posicionamento.
Acredito que o fenômeno do racismo revelado no presente trabalho deve incomodar profundamente aos cientistas sociais, não apenas como objeto de estudo, mas como dado que exige um posicionamento claro. Nos últimos cinco anos tenho pesquisado o ciberracismo, e é com um trecho de um trabalho apresentado em um Congresso virtual, acerca do tema, que termino o presente trabalho:
A idéia de que reconhecer o Outro como objeto de ódio, é para o agente deste habitus uma forma de garantir o reconhecimento, por parte da comunidade racista[17] de uma situação de pertencimento, que expressará, de alguma forma, uma situação de segurança e distintividade. […] Inscritas nas ilhas etnografadas no oceano digital, estas práticas celebram rituais, enquanto rememoram seu mito, em cerimônias hipertextuais demarcadas pelos links que as interligam. Links de ódio. (DIAS, 2006, 14)

Neste momento, uma nova (velha) fronteira de pesquisa salta aos olhos: racismo e política. O discurso racista quer a sua solução para o problema político, e busca-se soluções políticas (inclusive de inclusão) para a questão racista. No entanto, para além de toda a complexidade que esta questão exige, que não cabe, infelizmente nos limites propostos a este trabalho, mas que levarei adiante em futuras pesquisas, há o ódio. O ciberódio, a intolerância feita site, feita fórum, feita postagem. Por quantos tópicos este ódio se perpetuará?

Referências Bibliográficas
CASTELLS, M . O poder da identidade. São Paulo: Paz e Terra, 1999
DIAS, ª Ciberracismo, entre o ódio e a militância. Anais da tercera edición del Congreso ONLINE del Observatorio para la CiberSociedad bajo el título Conocimiento Abierto, Sociedad Libre, Barcelona, 2003.
DWYER, T. Tecnologias de información y comunicación. … Investigaciones Sociales ano VIII, no 12, Lima. 2004. pp 325-335.
EISENBERG, J. e Cepik, M. (orgs) 2002. Internet e Política: Teoria e Prática da Democracia Eletrônica. BeloHorizonte, Editora da UFMG.
NEWMAN., M. E. J. From the cover: the structure of scientific collaboration networks. Procedings of the National Academy of Sciences of USA (PNAS), V. 98
POSTER, M. Ciberdemocracy: The Internet and The Public Sphere In: David Porter (Ed), Internet Cultura. 1997


[1] CASTELLS, M. O Poder da Identidade. São Paulo, Paz e Terra, 1999 (Obra original de 1996), pp. 374.
[2] As relações entre Internet e política são pensadas por diversos autores, como o cientista político José Eisenberg, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), um estudioso das questões que envolvem o uso da rede mundial de computadores no fortalecimento da democracia nas sociedades, em especial a brasileira
[3] Doravante denominarei as comunidades como “pró-Lula”, e “pró- Alckmin”, para dar conta, inclusive, do intenso processo de mudança de nomes que observei nas mesmas.
[4] O site pessoal do engenheiro turco Orkut está disponível em http://www.stanford.edu/~orkut/self.html e seu perfil no Orkut é http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=325082930226142255. Há outros perfis falsos (denominados de fakes, no Orkut) que afirmam pertencer a ele.
[5] Os dados estatísticos utilizados são de
[6] Milgram concebeu este dado por meio de uma experiência realizada com 160 pessoas , moradores de Boston e Omaha (Nebraska), nos EUA. Cada um dos participantes recebeu de Milgram as instruções para que a mesma chegasse a uma pessoa-alvo, nativa de Sharon, Massachussets, mas que morava e trabalhava em Boston. Não era permitido enviar a correspondência diretamente à pessoa-alvo, mas apenas por meio de amigos e conhecidos que facilitassem o contato com ela. O nome de cada participante era inscrito na correspondência de modo a viabilizar o monitoramento do caminho percorrido até o seu destino final. Este método ficou conhecido como small-world. Ao término da experiência, Milgram calculou o número médio de seis intermediários entre os participantes. Conhecida como “Seis Graus de Separação”, o experimento de Milgram demonstrou como operacionalizam-se as redes sociais.Os “seis graus de separação” representariam 10 elevado a 6º potência, resultando em um milhão de contatos, exponenciando o poder das redes sociais.
[7] Cf. NEWMAN., M. E. J. From the cover: the structure of scientific collaboration networks. Procedings of the National Academy of Sciences of USA (PNAS), V. 98, P. 404-409, JAN 2001; 98: 404 – 409. Disponível em: http://www.pnas.org/cgi/reprint/98/2/404. Acesso em: e também WATTS, D. J. Small Worlds: the dynamics of networks between order and randonmness. Princeton, New Jersey: Princeton University Press, 1999.
[8] Os dados se referem a 24 de janeiro de 200.
[9] Selecionada, no ato de criação da mesma, entre as disponibilizadas pelo Orkut.
[10] Perfil disponível em http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=12039168275152215969
[11] Perfil disponível em http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=907224195596735433
[12] Durante a campanha do segundo turno a comunidade variou entre pública e privada.
[13] Prevendoum colapso da esfera pública, e de sua conceituação, o que levaria a uma crise de democracia política, Jürgen Habermas publicou The Structural Transformation of the Public Sphere (A Transformação Estrutural da Esfera Pública) em 1962. É neste livro que se baseia a argumentação de Pôster para discutir este “colapso”, que modificou profundamente, nas últimas década a forma de fazer política. Infelizmente, presa ao limite do presente texto, não aprofundarei esta questão no momento.
[14] Para concorrer pelo PSDB à presidência da República, Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho superou a disputa interna com José Serra, que foi candidato no pleito presidencial de 2002. Com o apoio da cúpula tucana, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Alckmin foi oficializado pelo partido em 14 de março.
[15] Matéria disponível em http://www.terra.com.br/istoedinheiro/473/economia/brasil_dividido.htm
[16] Segundo informou a Folha de São Paulo: “A 15 dias das eleições, a Polícia Federal apreendeu vídeo, DVD e fotos que mostram o candidato do PSDB ao governo de São Paulo, José Serra, na entrega de ambulâncias da máfia dos sanguessugas. O material contra Serra seria entregue pelo empresário Luiz Antônio Vedoin, chefe dos sanguessugas e sócio da Planam, a Gedimar Pereira Passos, advogado e ex-policial federal, e Valdebran Padilha da Silva, filiado ao PT do Mato Grosso. Gedimar e Valdebran foram presos, em São Paulo, com R$ 1,7 milhão. Eles estavam no hotel Ibis, e aguardavam por um emissário do empresário, que levaria o dossiê contra o tucano. O PT nega que o dinheiro seja do partido. O emissário seria o tio do empresário, Paulo Roberto Dalcol Trevisan. A pedido de Vedoin, o tio entregaria em São Paulo o documento a Valdebran e Gedimar. Os quatro envolvidos foram presos pela Polícia Federal. Em depoimento à PF, Gedimar disse que foi “contratado pela Executiva Nacional do PT” para negociar com a família Vedoin a compra de um dossiê contra os tucanos, e que do pacote fazia parte entrevista acusando Serra de envolvimento na máfia. Ele disse ainda que seu contato no PT era alguém de nome “Froud ou Freud”. Após a denúncia, o assessor pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Freud Godoy, pediu afastamento do cargo. Ele nega as acusações. Após o episódio, outros nomes ligados ao PT começaram a ser relacionados ao dossiê. Esse é o caso do ex-coordenador da campanha à reeleição de Lula, Ricardo Berzoini, presidente do PT. Seu ex-secretário no Ministério do Trabalho Oswaldo Bargas (coordenador de programa de governo da campanha) e Jorge Lorenzetti –analista de mídia e risco do PT e churrasqueiro do presidente– procuraram a revista “Época” para oferecer o dossiê.” Disponível na Internet em www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u83573.shtml –
[17] Conforme saliente em minha pesquisa e no artigo já citado, trata-se de um crime, assim caracterizado pela legislação brasileira. Alguns sites advogam o direito à liberdade de expressão e afirmam não se considerarem racistas, expressarem apenas opiniões. Outros sugerem maneiras de como manter o material distante das autoridades competentes. Por esta característica, muitos sites, principalmente os disponibilizados em provedores gratuitos são retirados do ar, para em seguida reaparecerem, múltiplos em três ou quatro servidores novos, inclusive em domínios estrangeiros. Um dos sites pesquisados afirma exatamente isto: para cada site retirado do ar, assume-se o compromisso de disponibilizar, pelo menos, três novos. Isso evidencia uma rede.

comntários acerca de meu artigo no CiberCongresso…

El artículo de Adriana Dias afronta el estudio del racismo en el espacio de Internet. Lo hace desde una aproximación etnográfica centrada en el análisis de foros virtuales de contenido racista como escenario de práctica social. El artículo debate sobre los significados culturales ocultos en las conversaciones mediatizadas por herramientas de comunicación asíncronas y, al tiempo, reflexiona sobre el potencial del método etnográfico para desentrañar las prácticas culturales que desembocan en actitudes racistas y de odio al otro.La autora aprovecha el objeto de estudio y el método empleado para profundizar en los siguientes tópicos:
# El método y las estrategias de investigación. La autora problematiza sobre el acceso a la muestra y la elección de los foros que serán objeto d estudio.
# La ciber-temporalización (temporalidades en terminología sartreriana) y la secuencia de investigación como esencia de lo etnográfico cuando el campo de estudio se traslada al ciberespacio.
# Las traslaciones entre el análisis de discurso y de contenido desde un enfoque estructural (categorial) en el campo físico y el virtual, con los recursos existentes en el lenguaje y “aparataje” informáticos.
# El artículo culmina con una discusión dialógica sobre el enfoque Pierre Bourdieu del capital social, los hábitos y sus derivadas al ámbito del poder.Estas pueden ser, pues, las dimensiones sobre las que iniciar la discusión de esta interesante aproximación etnográfica al estudio del racismo en la red.

Reflexões acerca do Ensino de Sociologia (e da Antropologia) no Ensino Médio

escrevi este artigo há algum tempo. preciso revê-lo!

Entre Delors e os PCNs “a quem serve o ensino antropológico no Ensino Médio”?

INTRODUÇÃO
O presente texto pretende contribuir com a discussão acerca do material pedagógico para a disciplina Sociologia no Ensino Médio, no Brasil, partindo de duas reflexões: a primeira assume uma postura crítica diante da compreensão evidenciada por diversos órgãos acerca do Ensino Médio, e a segunda trata da disciplina inclusa recentemente no mesmo, dentro das especificidades para ela traçadas pelos documentos do Ministério da Educação e Cultura.
Na primeira parte do texto enfrentaremos a relação entre o Relatório Delors e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) para o Ensino Médio, mas também discutiremos o relatório final da Reunião Internacional de Especialistas sobre o Ensino Médio no Século XXI: Desafios, Tendências e Prioridades. A proposta é tecer um diálogo crítico com estas propostas, para pensar como a construção de políticas públicas, suas abrangências e sua efetivação, no Brasil, são respostas ás prioridades das agendas internacionais.Para situar cronologicamente o debate, a agenda internacional será discutida no presente texto partindo do Relatório Delors[1], concluído em 1996, (publicado no Brasil, com o título Educação: Um Tesouro a Descobrir, em 1998) e elaborado pela Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, coordenada por Jacques Delors. Este relatório é fruto de uma longa jornada de textos e discussões priorizadas pela UNESCO, desde a Conferência Mundial de Educação para Todos[2], datada de 1990, e que se amplia acerca da discussão a respeito do ensino médio na conferência Ensino Médio no Século XXI: Desafios, Tendências e Prioridades[3], realizada na China em 2001. A agenda nacional se referencia na Constituição brasileira, de 1988, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394), de 20 de dezembro de 1996 e nos diversos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), de 1997. É preciso pensar as propostas destes documentos e relatórios, problematizando-os também como agendas ideológicas, e pensando-os como é possível importar idéias sem avaliar a situação nacional.
Na época em que se estava construindo a discussão acerca da LDB, Florestan Fernandes, num artigo para o Jornal de Brasília[4], afirmara:
Em vista da próxima elaboração da nova lei de diretrizes e bases de educação nacional, é fundamental que se revejam as práticas imperantes em nosso ensino, especialmente no primeiro e segundo graus. Começamos por importar idéias francesas e alemãs, no fim do século passado; tentamos depois, também, “reproduzir” o que nos pareceu ser o ensino primário norte-americano e o enciclopedismo iluminista de segundo grau francês. Em ambas imitações falhamos. As instituições importadas não podem ser redefinidas, em seu significado, estruturas e funções fora do seu contexto psicossocial e cultural. [grifos nossos]

Na ocasião, o grande sociólogo brasileiro já advertia acerca da impossibilidade de se importar práticas de ensino, absolutamente distanciadas da realidade brasileira, que apenas ocasionaram, para Florestan Fernandes um imenso empobrecimento educacional: “empobrecemos as instituições, as práticas que elas engendram e o seu rendimento pedagógico”, afirmou ele, no mesmo artigo. É nesse mesmo sentido que esperamos tratar os textos que atendem a demanda internacional para evitar a mera “importação de práticas”: é preciso pensar o ensino, e aqui nos deteremos no ensino médio, enfatizando a realidade nacional, e nosso “contexto psicossocial e cultural” como advertiu Florestan Fernandes. Como pensar o Ensino Médio para que este possa participar da idéia do grande sociólogo brasileiro, defensor da necessidade de “construir uma escola auto-suficiente e autônoma, capaz de crescer por seus próprios dinamismos?”
Na segunda parte tentaremos situar como a inclusão da disciplina Sociologia se relaciona, nas diversas fontes documentais, com a proposta das agendas nacionais e internacionais, e como sua área de abrangência pode influenciar na discussão de toda esta temática, inclusive redirecionando as mesmas para o desafio proposto por Florestan Fernandes: “conferir à sala de aula a capacidade de operar como o experimentum crucis da prática escolar humanizada, de liberação do oprimido, de descolonização das mentes e corações dos professores e alunos, de integração de todos nas correntes críticas de vitalização da comunidade escolar e de transformação do meio social ambiente”. Para tanto, analisaremos como os diversos saberes disciplinares são relacionados no texto, produzido pelo MEC, Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais, Ciências Humanas e suas Tecnologias[5] que regula: “no conjunto das disciplinas curriculares que formam a área de Ciências Humanas e suas Tecnologias, a Sociologia engloba conhecimentos de Antropologia, Política, Direito, Economia e Psicologia”. Para efetivar esta análise, utilizamos o software de Pesquisa Qualitativa, o N*VIVO (versão 7), que permitiu relacionar quando temáticas destas disciplinas apareciam nos diversos textos, otimizando e aprofundando a análise. Devido aos limites deste trabalho, no entanto, apresentaremos aqui, apenas, as referentes à Antropologia.

1.1 AS AGENDAS INTERNACIONAIS E O ENSINO MÉDIO

A UNESCO[6] priorizou nas duas últimas décadas pesquisas e produção acerca da Educação, e disponibiliza em sua página muitos textos acerca do tema. Entre estes, o relatório final da Reunião Internacional de Especialistas sobre o Ensino Médio no Século XXI: Desafios, Tendências e Prioridades, que aconteceu em Beijin, República Popular da China, no ano de 2001, aponta para uma profunda necessidade de se pensar o processo educacional diante da “responsabilidade de todos os países na preparação dos estudantes para que possam atuar com competência ética e responsável em um mundo de rápidas transformações econômicas, sociais e culturais”. Neste documento a análise acerca do ensino médio parte de duas proposituras: a) O ensino médio deve merecer alta prioridade; b) Os objetivos e as funções do ensino médio devem ser redefinidos para o século XXI. O Ensino Médio seria, portanto um locus para a habilitar os estudantes em instrumentalizar as “rápidas transformações” do mundo dito contemporâneo, e o acesso ao ensino médio se torna prioritário para que esta demanda seja atendida. É preciso, informa o documento na página 22 atender a demandas do trabalho, e pensar como o ensino médio poderia permitir que o aluno se torne competente na “capacidade de se comunicar, de trabalhar em equipe, de adaptar-se às inovações, de ser renovador e criativo, de ter familiaridade com as novas tecnologias”. As quatro direções sugeridas pelo documento encontram os desejos dos orientadores do mesmo,e o ensino médio em sua “reforma” deveria considerar: “as novas condições de aprendizagem, a sociedade, a economia e o ambiente de trabalho”(pág19); produzindo por assim dizer jovens “capazes de decidir o seu próprio futuro, à luz de seus gostos e aptidões, e adquirir as competências que lhes permitirão ter êxito em sua vida adulta” (pág.15). É preciso priorizar ainda a construção de “sujeitos” capazes de uma revisão crítica dos objetivos e funções do ensino médio” (pág 7), pois, mister se faz lembrar, a reforma do Ensino Médio deve contribuir para os estudantes de modo que “sejam levadas em consideração as necessidades diversificadas dos alunos e para oferecer-lhes conhecimentos e saberes ao longo de toda a vida, inclusive o aprendizado profissional” (pág. 13). O documento orienta-se portanto na direção de se pensar o Ensino Médio como um espaço de aceleração da aprendizagem: é preciso aprender a aprender, para aprender a revisar criticamente o mundo, para decidir o próprio futuro, para aprender uma profissão. Inclusive quando o documento detalha a necessidade de se pensar uma educação mais geral ou uma mais técnica, é o foco na possibilidade do aprendizado em aprender que tecerá as escolhas nacionais e demarcará as viabilidades de cada proposta. Em sua página 45 o relatório afirma:
Já se percebe com clareza, em muitos países, uma tendência à aprendizagem ao longo de toda a vida, em que se modificam constantemente as características e exigências dos empregos e em que as pessoas passam a ter de transferir-se a cada momento entre os locais de ensino, de treinamento e de trabalho. Em vários países, o ensino médio já começou a ajustar-se a esta realidade, ora criando estruturas flexíveis e opções variadas em seus programas, ora reforçando os seus vínculos com o mundo do trabalho.

Nesse sentido o documento de Beijin se articula diretamente ao Relatório Delors, orientando o processo de pensar a educação como uma prática que “deve transmitir, de fato, de forma maciça e eficaz, cada vez mais saberes e saber-fazer evolutivos, adaptados à civilização cognitiva, pois são as bases das competências do futuro”, ao mesmo tempo em que “compete-lhe encontrar e assinalar as referências que impeçam as pessoas de ficarem submergidas nas ondas de informações”, denominado, portanto, o processo educacional, simultaneamente como “um saber-fazer evolutivo” e “uma bússola”, que por um lado permite a aquisição continuada de dados e competências, intrumentalizando cognitivamente o indivíduo, e, por outro, diante dos novos mapas, permite que este mesmo indivíduo se direcione em sua busca de desenvolvimento, quer pessoal, quer voltado a projetos coletivos. O relatório Delors se arquiteta em quatro pilares do conhecimento – aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos, aprender a ser. Nestes se resume a proposta dos diversos documentos produzidos acerca da educação: é preciso preparar o estudante para uma competente capacitação em se adequar às mudanças constantes no processo de trabalho, cada vez mais dinâmico e tecnológico. O texto evidencia ainda quão frágil é a “atualização” num mundo cercado de tão grandes e constantes mudanças, argumentando que apenas um “sujeito” capaz de “aprender a aprender” poderá se manter atualizado e caberia a educação viabilizar este aprendizado do aprendizado, que tornaria o mundo mais justo, mais ético e com menos assimetrias sociais. Esta idealização se vale dos valores do trabalho como forma de satisfação pessoal e desenvolvimento social e criativo do “sujeito”. Nesse sentindo a agenda internacional da UNESCO aponta para uma educação que seja “Básica, Técnica e Tecnológica[7]”, que se direcione a adaptabilidade do sujeito ao mercado de trabalho e a fluidez que a globalização exige deste sujeito, para garantir sua “empregabilidade”. Esperamos com isso ter demonstrado que há, de fato, uma agenda internacional, que pensa a educação como um facilitador de um processo cognitivo continuado, que serve, também aos interesses mercadológicos, econômicos e de produção da globalização e que o Ensino Médio é visto como uma necessidade destes interesses, e que a universalização do mesmo é uma exigência deste processo. Um outro documento acerca da Educação Técnica e Profissional, ETP, (na qual se inclui, evidentemente o Ensino Médio), se afirmou:
Mesmo que a responsabilidade do ETP seja antes de tudo competência do Estado numa economia de mercado moderna, a concepção da política de ETP e sua instauração devem ser assegurados por novas parcerias entre o Estado, empregadores, profissões, empresas, sindicatos e a sociedade. Esta parceria deve criar um quadro legislativo coerente para permitir o lançamento de uma estratégia nacional de mudanças na qual o Estado afora sua função de provedor do ETP, pode dirigir sua orientação e lhe dar configuração para facilitar, coordenar e assegurar a qualidade de forma que o ETP seja acessível a todos, identificando e realizando a missão do serviço público. A capacidade das parcerias deve ser fortalecida por dispositivos e meios de formação destinados a proporcionar as devidas competências.

O texto acima, retirado do relatório de 1999, Recomendações sobre Ensino Técnico e Profissional, produzido na conferência de Seul, revela a dinâmica e esperada associação entre o setor privado e público para favorecer aos interesses da “economia de mercado moderna” que pense a educação não mais sob a ótica do “encicopledismo francês”, mas sob o interesse do neoliberalismo globalizado. Mais uma vez, importaremos sem problematizar?

A IMPORTAÇÃO DA AGENDA INTERNACIONAL: A LDB, OS PCNS E O LUGAR DO ENSINO DE SOCIOLOGIA
Na Lei nº 9.394, que “estabelece as diretrizes e bases da educação nacional”, o artigo 35, trata das finalidades do ensino médio, priorizando neste: a)um lugar de aprendizado que ao mesmo tempo que aprofunda e retoma estudos anteriores, prepara para etapas posteriores; b) uma etapa de “preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando”; c) a construção de uma “formação ética” aliada ao “desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico”; visando o “aprimoramento do educando como pessoa humana”; d) a apreensão de elementos “científico-tecnológicos dos processos produtivos”, teóricos e práticos, nas diversas disciplinas, que o capacitem para uma maior apreensão dos mesmos em etapas posteriores. Avaliando estas “finalidades” é possível pensar o ensino médio como um lugar de passagem, que ao mesmo tempo, retoma e antecipa, forma e prepara. Na LDB, no artigo seguinte se tratará das diretrizes do currículo do ensino médio, .e especificamente no parágrafo., inciso III, do § 1º se trata da Sociologia:
Os conteúdos, as metodologias e as formas de avaliação serão organizadas de tal forma que ao final do Ensino Médio o educando demonstre:
III – domínio dos conhecimentos de Filosofia e Sociologia necessários ao exercício da cidadania.”
Abria-se a porta para o retorno da Sociologia, enquanto disciplina, ao currículo do ensino médio brasileiro. Excluída do mesmo desde 1941 quando a Reforma Capanema desobriga sua presença nos cursos secundários, com exceção do denominado curso normal, que preparava professores para a Educação básica, a Sociologia vai perdendo força nos currículos, até sua retirada maciça dos mesmos no período militar, que em sua ideologia de civismo e culto à obediência e à lei via na disciplina uma matéria indesejável. É na década de 90 que a luta de associações, estudantes, professores, parlamentares se vê contemplada, com a efetivação do Parecer CNE/CEB Nº: 38/2006 do Conselho Nacional de Educação, que trata da Inclusão obrigatória das disciplinas de Filosofia e Sociologia no currículo do Ensino Médio. Tendo como relatores Cesar Callegari, Murílio de Avellar Hingel e Adeum Hilário Sauer, o Parecer reitera:
a importância e o valor da Filosofia e da Sociologia para um processo educacional consistente e de qualidade na formação humanística de jovens que se deseja sejam cidadãos éticos, críticos, sujeitos e protagonistas. Essa relevância é reconhecida não só pela argumentação dos proponentes, como por pesquisadores e educadores em geral, inclusive não filósofos ou não sociólogos.

Reconhece, ainda, “essa importância ao destacar nominalmente os conhecimentos de Filosofia e de Sociologia, dando-lhes valor essencial e não acidental, com caráter de finalidade do processo educacional do Ensino Médio. (artigo 36, § 1o, inciso III, da Lei nº 9.394/96)”, e destaca:
Sob a ótica da LDB, os conhecimentos de Filosofia e Sociologia são justificados como “necessários ao exercício da cidadania” (artigo 36, § 1o, inciso III, da Lei nº 9.394/96). Com os demais componentes da Educação Básica, devem contribuir para uma das finalidades do Ensino Médio, que é a de “aprimoramento como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico” (art. 35, inciso II, da LDB). E devem, ainda, mais especialmente, seguir a diretriz de “difusão de valores fundamentais ao interesse social, aos direitos e deveres dos cidadãos, de respeito ao bem comum e à ordem democrática” (art. 27, inciso I, da LDB).

Em sua conclusão o documento afirma que adotando-se, por parte do estabelecimento de ensino, segundo permite a lei específica, organização curricular flexível, deve-se incluir o “domínio de conhecimentos de Filosofia e Sociologia necessários ao exercício da cidadania”, adotando-se a organização curricular estruturada por disciplinas, deverão ser incluídas as de Filosofia e Sociologia. Mas, o que os PCNs, que orientam esta inclusão, entendem por Sociologia?
O primeiro volume dos Parâmetros Curriculares Nacionais, que trata das bases Legais[8], se refere por quatro vezes vezes, o texto da LDB supracitado. Explicando-o o relatório informa:
Pela constituição dos significados de seus objetos e métodos, o ensino das Ciências Humanas e Sociais deverá desenvolver a compreensão do significado da identidade, da sociedade e da cultura, que configuram os campos de conhecimentos de História, Geografia, Sociologia, Antropologia, Psicologia, Direito, entre outros. Nesta área incluir-se-ão também os estudos de Filosofia e Sociologia necessários ao exercício da cidadania, para cumprimento do que manda a letra da lei. No entanto, é indispensável lembrar que o espírito da LDB é muito mais generoso com a constituição da cidadania e não a confina a nenhuma disciplina específica, como poderia dar a entender uma interpretação literal da recomendação do inciso III do Parágrafo primeiro do Artigo 36. Neste sentido, todos os conteúdos curriculares desta área, embora não exclusivamente dela, deverão contribuir para a constituição da identidade dos alunos e para o desenvolvimento de um protagonismo social solidário, responsável e pautado na igualdade política.

O texto portanto insere a disciplina Sociologia na área de Ciências Humanas e Sociais, que partilha o interesse didático pelo desenvolvimento da “compreensão do significado da identidade, da sociedade e da cultura”, cujas divisões disciplinares abarcariam “História, Geografia, Sociologia, Antropologia, Psicologia, Direito, entre outros”. Caberia a esta área de “Ciências Humanas e Sociais”, cumprir “a letra da lei” pela inclusão da Sociologia e da Filosofia, esta última não enumerada na relação que antecede, para efetivar a exigência da LDB que prevê nestas duas disciplinas os estudos “ necessários ao exercício da cidadania”, ainda que, para os autores dos PCNs estes estudos sejam também contemplados não confinados “a nenhuma disciplina específica”, apontando para que TODOS os conteúdos desta área contribuam, de fato, para “a constituição da identidade dos alunos e para o desenvolvimento de um protagonismo social solidário, responsável e pautado na igualdade política”. Desta forma se define, no texto dos PCNs que tratam das abses legais, o sentido de exercício de cidadania: por um lado a formatação de uma “identidade dos alunos” e por outro um “protagonismo social solidário, responsável e pautado na igualdade política”.
A seguir, no quarto volume dos PCNs, que tratam especificamente das “Ciências Humanas e suas Tecnologias[9]”, a disciplina Sociologia é mais abrangentemente discutida: o texto destaca que na formação dos “textos específicos voltados para os conhecimentos de História, Geografia, Sociologia e Filosofia”, foram inseridas “diversas alusões – explícitas ou não – a outros conhecimentos das Ciências Humanas que consideramos fundamentais para o Ensino Médio.” (pág.04) Estes conteúdos se referem segundo os PCNs, “a conhecimentos de Antropologia, Política, Direito, Economia e Psicologia”. A idéia, segundo o relatório, é definir, independentemente de como será a adequação das instituições escolares quanto a denominação e carga horária escolhidos para o fim de inclusão dos conteúdos enumerados, “afirmar que conhecimentos dessas cinco disciplinas são indispensáveis à formação básica do cidadão”. O documento inclui nestes “conhecimentos”, tanto os “principais conceitos e métodos com que operam”, como abordam “as situações concretas do cotidiano social, tais como o pagamento de impostos ou o reconhecimento dos direitos expressos em disposições legais”. Importa, portanto, permitir ao aluno decodificar léxicos próprios destas disciplinas, e os PCNs citam explicitamente “economês” e o “legalês”, como exemplos disto. Se o quarto volume aborda os conteúdos da disciplina desta Sociologia desta forma, no texto das Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais Ciências Humanas e suas Tecnologias, também editado pelo MEC, retoma o documento anterior com uma citação: “segundo os PCNEM, o estudo das Ciências Sociais no Ensino Médio tem como objetivo mais geral introduzir o aluno nas principais questões conceituais e metodológicas das disciplinas de Sociologia, Antropologia e Política. (p. 317)”; ainda que acrescente a estas temáticas conteúdos oriundos de outras disciplinas referentes aos “conceitos e métodos do Direito, da Economia e da Psicologia seriam também indispensáveis à formação básica do cidadão” (pág. 87).
Como no texto dos PCNs e das Orientações Educacionais Complementares as disciplinas vivem em estado de fluidez, achamos necessários abordar como alguns elementos teóricos conceituais são tratados, em especial a Antropologia. Visitaremos algumas marcações disciplinares a seguir:
Há várias citações acerca da Antropologia, as três primeiras retomam a idéia de incorporá-la ao conteúdo da “Área de Ciências Humanas e Sociais”, especificado um laço entre Antropologia, Política, Direito, Economia e Psicologia. Isto se dá por duas vezes na página 4 e uma vez na página 06. è nesta mesma página que se dá a seguir, a primeira tentativa de definir o campo da disciplina. Diz o texto: “a Antropologia, em sua vertente etnográfica, lançou-se à descrição dos povos “exóticos”, que a expansão econômica e política das grandes potências capitalistas necessitava submeter”. Esta primeira definição, exila a Antropologia na descrição dos povos ditos “exóticos”, ignora que embora a Antropologia na sua constituição disciplinar tenha tido no trabalho etnográfico acerca dos ditos “povos primitivos” ou “sociedades simples” a disciplina se consolidou exatamente por desenvolver todo um conjunto de monografias que teceram, ao longo de décadas parâmetros suficientes para mostrar que não haviam estas “simples sociedades”, pelo contrário: seus sistemas de parentesco, suas crenças, seus mitos e rituais são extremamente complexos, e também deve-se à perspectiva etnográfica o demonstrar que a humanidade e seus complexo processos mentais estão presentes em todas as sociedades humanas, e se algo as difere, isto se daria pelo isolamento geográfico que permitiu trocas culturais menos numerosas (LÈVI-STRAUSS: 1950).
A seguir o documento traça um paralelo, na página 12 entre Sociologia e Antropologia, ambas responsáveis, segundo o texto na “construção da identidade social e, sem negar os conflitos, a convivência pacífica. Dá-se especial destaque ao relativismo cultural proposto pelas correntes antropológicas surgidas após a Segunda Guerra Mundial, que advogam o direito de todos os povos e culturas construírem sua organização própria, respeitando da mesma forma os direitos alheios.” Se a tentativa era comparar o início da disciplina com a ascensão do relativismo cultural, talvez fosse mais interessante e elucidativo que isto fosse explicitado, para evitar marcar a disciplina antropológica ora pela tatuagem de ter servido aos interesses econômicos dominantes, “em sua vertente etnográfica”, ora por promover “ a convivência pacífica”. A etnografia na Antropologia abarca muitas outras direções, e se há antropologia das sociedades ditas simples, há a etnografia da sociedade dita complexa, que tem demonstrado um grande poder denunciador das diversas formas de dominação, quer se pretendam religiosas, científicas, políticas, econômicas, dentre outras.
Logo a seguir a Antropologia divide com a Geografia e a História o “papel a desempenhar na formação dos futuros cidadãos,entendendo-se estes quer como cidadãos de uma nação, quer como cidadãos do mundo”(pág 13). A Antropologia divide também com a história outro lugar no texto, na página 22, o de considerarem “a cultura não apenas em suas manifestações artísticas, mas nos ritos e festas, nos hábitos alimentares, nos tratamentos das doenças, nas diferentes formas que os vários grupos sociais, ao longo dos séculos, têm criado para se comunicar, como a dança, o livro, o rádio, o cinema, as caravelas, os aviões, a Internet, os tambores e a música”. construção e consolidação da cidadania plena. Em outra “vertente”, se considera a capacidade da Antropologia para fornecer “elementos teórico-metodológicos para se pensar as sociedades complexas, a partir de noções como experiências culturais (que, em certa medida, moldam nossos “mapas” de orientação para a vida social), rede de relações, papéis sociais, que informam o processo de constituição das identidades sociais, num constante fluxo, na maioria das vezes etnocêntrico, de diferenciações, entre “nós” e os “outros”. Um outro comentário na página 46 revela que a Antropologia “dada a sua materialização como escrita, muitas vezes de beleza e vigor poéticos incomparáveis” é muitas vezes “aproximada da Literatura”. Um pouco mais adiante esta “enunciação estético-expressiva” é associada ao relativismo na antropologia cultural. Entre a dominação colonial e o ato da bela escrita, os PCNs descrevem várias antropologias, e um pouco do que se espera de sua contribuição ao conteúdo da disciplina.
Nas Orientações Complementares a primeira aparição da Antropologia se dá no seguinte contexto: “A divisão de territórios entre as distintas ciências humanas é um exemplo de como, na organização disciplinar do conhecimento, não há demarcações absolutas, pois há mesmo aspectos comuns da geografia e da sociologia, ou também da história e da antropologia, tanto da perspectiva conceitual e/ou temática quanto de instrumentos analíticos. (pág. 15)” Mais adiante a contribuição antropológica é retomada (pág. 45), num trecho que expressa o vínculo da Filosofia coma disciplina antropológica: “Ao analisar os fundamentos e os fins da ação, parte-se das grandes áreas de reflexão da ética, estética, política, antropologia etc., a fim de compreender as formas de agir nos campos da moral, da arte, do exercício do poder, da técnica, da magia etc.” Caberia pensar aqui que a ética, a estética e a política são desde os primórdios da fundação da filosofia parte integrante da mesma?
Na página 72, o texto das Orientações Complementares aborda como na fronteira entre a História e a Antropologia “os sistema de relações, passaram a ser consideradas como partes da realidade social a ser investigada e analisada.” Segundo o texto, “a incorporação das representações do mundo social como objeto da História deve muito à Escola dos “Annales”, à Nova História e também às aproximações entre a História e a Antropologia que ampliaram o conceito de cultura nos trabalhos historiográficos, como mencionam os PCNEM:” Refletindo, na página 89 acerca das habilidades específicas do currículo de Sociologia, o texto aponta para “o conjunto das disciplinas curriculares que formam a área de Ciências Humanas e suas Tecnologias” no qual “a Sociologia engloba conhecimentos de Antropologia, Política, Direito, Economia e Psicologia.” O objetivo desta área seria, portanto,
“Identificar, analisar e comparar
a) os diferentes discursos sobre a realidade;
b)as explicações das Ciências Sociais, amparadas nos vários paradigmas teóricos, e as do senso comum.”

Além disso é necessário que seja capaz de:
Produzir novos discursos sobre as diferentes realidades sociais, a partir das observações e reflexões realizadas.

Nesta perspectiva, o texto acrescenta, na página seguinte:
“Nesse segmento, a contribuição da Antropologia é marcante, ao envolver os conceitos de cultura e de diversidade cultural. Ao lado disso, a possibilidade de ampliar a visão de mundo, desenvolver uma visão crítica da sociedade contemporânea e respeitar as diversidades culturais, sociais e pessoais vão permitir ao aluno a decodificação da complexa realidade social, levando-o a assumir atitudes mais críticas e atuantes na comunidade.

Mais tarde, quando sugere a organização dos eixos temáticos da disciplina, a Antropologia aparece para problematizar, ao lado da Filosofia o conceito de cultura.
É interessante notar como parece num primeiro momento distante toda a construção de uma disciplina no texto e os objetivos do Ensino Médio enumerados nas bases legais dos PCNs e dos documentos da agenda internacional. Apenas neste último texto fica claro como se pretende incorporar de alguma forma o saber antropológico no contexto, esperando que isto gere respeito e atuação social.
Esta colcha de comentários pretende contribuir para pensarmos como os PCNs “importam” (para privilegiar a fala de Florestan Fernandes) o saber Antropológico, e como fazem “em sua vertente etnográfica” acerca da mesma uma utilização da mesma, que parafraseando o próprio texto, buscaria a integração da mesma na “globalização econômica e política das grandes potências neoliberais necessitam submeter”… É preciso propor sim que os eixos temáticos sejam capazes de abarcar a contribuição antropológica, não apenas quando se trata de cultura, seja dito, mas qual antropologia? E para que?


[1] O Relatório UNESCO sofreu várias atualizações: a ultima está disponível em http://unesdoc.unesco.org/images/0012/001298/129801por.pdf
[2] O relatório está disponível em http://www.unesco.org.br/publicacoes/copy_of_pdf/decjomtien
[3] O texto oficial está disponível em http://unesdoc.unesco.org/images/0013/001335/133539por.pdf
[4] Publicado originalmente in: Jornal de Brasília, de 23/03/1989; e reproduzido na coletânea “O desafio educacional”, Florestan Fernandes. São Paulo: Cortez e Editora Autores Associados, 1989, pp. 22-24.
[5] http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/CienciasHumanas.pdf
[6] A agência das Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, possui 192 membros e foi criada em 1945. Seu site está disponível em http://www.unesco.org.br/
[7] Acerca desta divisão, há o documento Educação, trabalho e desemprego: novos tempos, novas perspectivas, que atende a esta elucidação. Disponível em http://unesdoc.unesco.org/images/0013/001302/130294porb.pdf
[8] http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/blegais.pdf
[9] http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/cienciah.pdf

Observando o Google

este artigo foi escrito em 2004, antes do vínculo do Google e do Orkut (um produto Google) pela conta Google.

Introdução

Foi assunto no The New York Times. O presidente da Biblioteca Nacional Francesa, Jean-Noel Jeanneney se alarmou em dezembro de 2003, quando soube do projeto da Google Inc, detentora do mecanismo de busca Google: pretende-se digitalizar 15 milhões de livros em inglês e disponibilizá-los como arquivos digitais na Internet. Para Jeanneney, tamanha manobra fortaleceria ainda mais o poder americano de comandar a agenda cultural global. O projeto, denominado Google Print faz parte de uma significativa cadeia de interesses do Google no meio acadêmico: há também o Google Scholar[1] voltado especificamente para a “varredura” de textos acadêmicos. O presidente da França, Jacques Chirac se reuniu, em maio de 2004, com ministros da União Européia para discutir a viabilização de um projeto semelhante para as grandes bibliotecas da França e da Europa.

Este debate se inicia alicerçado num polêmico tema: deter informação (inclusive digital) é deter poder? Quais os limites desta detenção? A quem se dirige? O que é visibilidade e invisibilidade de informação na rede? Uma parte significativa da informação disponível na Internet permanece invisível, mesmo ao mais utilizado motor de busca, o Google, o que revela hiatos entre os formatos da informação disponível e o acesso a esta, pelos mecanismos de busca. O que esta “invisibilidade” narra? O que torna um site invisível a um motor de busca? Como esta acessibilidade/invisibilidade narra a relação de poder/saber presente na rede? Como as regularidades nos resultados de busca descrevem formas de dominação?

O fenômeno Google, inserido no contexto em que a produção, a legitimação e a reprodução da “cultura de massa” ganha proporções gigantescas, na medida em que se torna digital, pode oferecer pistas valiosas de como esta “cultura de massa ameaça não só cretinizar o nosso gosto, mas também brutalizar nossos sentidos, ao mesmo tempo que abre caminho para o totalitarismo’( Rosenberg 1973:22). Ser considerado um bom resultado no Google é, para um site, ter um valor reconhecido. Nesse ponto, citando Dumont, “adotar um valor é introduzir hierarquização”, é preciso discutir: como o Google cria esta hierarquização, e como se vale dela? O que este mecanismo de busca, atualmente o rosto mais conhecido de uma empresa, sediada na Califórnia, grande recrutante de “talentos” de Zurique a Bangalore, como ela mesmo afirma na página do portal em que descreve a “cultura Google[2]”.

Como uma ferramenta de busca gerou uma “cultura”? Que elementos simbólicos o Google incorporou para produzir não apenas capital econômicos, mas uma extensa produção mitológica: há inclusive uma Igreja Googleana das Informações Urgentes[3], um site anedota, que explicita a importância e a rede de significados que este sistema de busca desenvolveu ao longo de sua criação.

Para viabilizar uma problematização destas questões diversas informações foram analisadas: passam por pontos da trajetória do mesmo[4], sua configuração de busca, matérias disponibilizadas acerca do mesmo, os textos de auto-descrição de seu portal, e outros elementos textuais que fazem dele seu objeto: como listas de discussão, comunidades, páginas pessoais. A discussão pretende pensar como as relações presentes entre os links são lidas pelo Google como relações sociais digitalizadas, e como estas espelham mecanismos de determinação, hierarquias, controle e integração social. O Google se autodenomina como uma ferramenta honesta e simples para ordenar a Web. Para quem, e com que finalidades se presta esta organização. Meu desejo é que este texto contribua para a possibilidade desta discussão.

A história do Google

A história do Google principia 1995: na Universidade de Stanford, dois estudantes, Sergey Brin e Larry Page, concebem um sistema chamado BackRub, durante sua pesquisa de doutorado em ciência da computação. Os quartos de ambos serviriam, num primeiro momento, ao embrião do buscador recém-nascido, pelo qual interromperiam seus estudos temporariamente. A tentativa era de responder a um grande hiato dos mecanismos de busca, que, até então se limitavam a varrer a rede localizando as palavras desejadas pelo internauta, sem, no entanto, distinguir a informação “legítima”, ou seja, “de qualidade e autoridade” do restante, usualmente denominado “lixo digital”. Ou seja, antes da “Era Google”, a possibilidade de se encontrar no Yahoo, em sua antiga forma (que sofreu modificações posteriores para tornar-se mais competitivo com o Google), a academia de esportes do seu bairro e a Academia Brasileira de Letras, era praticamente a mesma, se no campo da busca se digitasse somente o termo academia.

Queixava-se, portanto, da falta de um método de validação do conteúdo. Alguns mecanismos[5] foram criados neste sentido, mas as regras que determinavam o ”prestígio” de um site na Internet não foram dinâmicas o suficiente para acompanhar o crescimento exponencial da rede, nem para capturar a dinâmica própria de legitimação na rede: um site sem importância, num momento, pode passar, rapidamente, a se destacar como “referência” na internet. Tal processo também se desenvolve em sentido contrário, e isso implicava numa mobilidade conceitual para qual os mecanismos não estavam preparados.

Pensando nesta defasagem, Sergey Brin e Larry Page criaram o BackRub: um robot de busca que se utiliza de um sistema, denominado PangeRank[6] que atribui para cada na web uma ‘nota”. Este princípio de classificação das páginas, valida as páginas por uma “hierarquia de links”. Links direcionados por uma “página importante” representam um voto maior, uma melhor classificação. Segundo dados do próprio Google, o sistema PageRank

“confia na natureza excepcionalmente democrática da Web, usando sua vasta estrutura de links como um indicador do valor de uma página individual. Essencialmente, o Google interpreta um link da página A para a página B como um voto da página A para a página B. Mas o Google olha além do volume de votos, ou links, que uma página recebe; analisa também a página que dá o voto. Os votos dados por páginas “importantes” pesam mais e ajudam a tornar outras páginas “importantes.”

Esta avaliação de “importância” classifica um site com uma nota, variável de 1 a 10. Assim, os sites oficiais de “grandes” empresas, entidades ou instituições como Nasa, recebem nota dez, e os links que eles atribuírem à outras páginas, na Internet, serão significados pelo Google como valor. É neste universo de páginas, classificado em ordem decrescente de PageRank, que o Google executará a busca digitada pelo usuário. É interessante observar que esta “regra” não vale para todos: o portal da UNICAMP, para citar um exemplo, possui PageRank (da URL) nota 7. O da USP, a versão digital da Folha de São Paulo e o da Globo também recebe a mesma avaliação[7]. O maior provedor de Internet em número de assinantes, o UOL, recebe uma nota 6. O canal de bate-papo do UOL, cujo tráfego inclui milhares de internautas é avaliado em cinco. Em sites de domínios estrangeiros, outros números supreendem: o site do Louvre recebe nota 8, dividindo com o estadunidense Sony, a mega multinacional de entretenimento e eletrônicos e o site oficial do Vaticano a mesma nota.

O Google se descreve como

“um meio fácil, honesto e objetivo de encontrar websites de boa qualidade com informações importantes para a sua pesquisa”. Numa descrição acerca dos motivos pelos quais deve ser utilizado afirma: “Google traz a ordem para a web.”

E ainda
“A intenção do Google é colocar ordem no caos da informação. Isso é o que um serviço de busca deve ser, não um simplesmente um diretório, ou uma lista de resultados que foram vendidos pelo maior lance, mas um método coerente de organizar a Internet de acordo com a sua estrutura. Com o Google os usuários podem pesquisar mais de 1 bilhão de URLs. O índice do Google, o qual contém mais de 1 bilhão de URLs, é o primeiro do seu tipo e representa uma coleção detalhada das páginas mais úteis da Internet.”

Garantir visibilidade no Google é, portanto, garantir legitimidade de qualidade, utilidade, importância. É garantir ainda que estas foram atribuídas de forma honesta, democrática, matemática, e, portanto “científica”.

Surge então um mercado: sites, revistas especializadas, livros textualizam “dicas” de como “crescer” em PageRank. Se “to google” um verbo criado na cultura estadunidense significa pesquisar com eficiência, PageRank, significa acesso: se alto, garantido. Estas “dicas” dividem-se em dois grupos: as que viabilizam notas maiores de PageRank sem levar em conta os links de outras páginas importantes, e as que consideram a segunda hipótese. As sugestões mais comuns no primeiro grupo são: acrescente palavras chaves no título do site[8], e também na URL do site; evite elementos ocultos, como texto branco em fundo branco, descreva imagens com as palavras chaves, utilizando as tags de descrição de imagem ( e ). Outras informações importantes: o Google preferência as páginas mais antigas, as que tem maior número de atualizações, com muitas páginas e pouca informação (texto) por página. No segundo grupo de sugestões alude-se, em geral, que se busque ser linkado pelos sites que possuem maior PageRank, porque seu “voto” vale mais. É importante estar listado em sites de busca, porque se um site é achado por um outro mecanismo de busca ele também recebe mais pontos. Note-se as informações implícitas: os outros robots de busca têm sua importância (e sobrevivência) garantida, e boas relações com os sites do podium PageRank são necessárias. Hierarquizar, organizar, validar, legitimar: a prática Google circunscreve um paradoxo: um site aparece no Google porque tem importância, ou tem importância porque aparece no Google?

O próprio nome Google, cuja pronúncia em português é “gugol”, um trocadilho com o termo Googol, criado pelo matemático Milton Sirotta para representar o número 1 seguido de 100 zeros (ou 10 elevado a 100) descreve a idéia sugerida pelo buscador, visando

“refletir a missão da empresa: a de organizar a enorme quantidade de informações disponíveis na Internet.”

A Google Inc., a empresa administradora do Google, oferece serviços na rede: os anúncios Google, denominados de Google AdWords, oferece a “oportunidade” de receber “clientes direcionados” por links no mecanismo de busca. A empresa paga por link clicado, que resultaria numa visita efetiva ao seu site institucional ou de vendas. Um outro produto, o Google AdSense, oferece anúncios contextuais relacionados ao conteúdo dos sites, que serão remunerados por exibi-los. É interessante pensar o panorama de lançamento destes produtos: ao abrir seu capita em agosto de 2004, na Nasdaq, a companhia vendeu 19,6 milhões de ações por US$ 85 cada. Desde então, cada papel chegou a ser comprado por US$ 185[9]. A “cultura” Google descreve seu milagre, a empresa que nascera nos quartos universitários de Sergey Brin e Larry Page torna-se a milionária empresa, garimpadora de talentos e sinônimo de um excelente lugar para se trabalhar[10]. Além disto, visando ampliar seu poder de penetração na internet, o Google adquiriu o mais conhecido dos editores de blogs, o Blogger, que já ultrapassou a casa dos dois milhões de usuários, e a mais famosa lista de discussões, a UseNet, com mais outros tantos milhões de internautas cadastrados. Criou um indexador de imagens Picasa e um provedor de e-mail gratuito: o Gmail[11]. Está por trás do Orkut, a febre que indexa pessoas pelo mundo afora. O que aconteceria se para utilizar-se de toda esta ampla quantidade de informação algum valor começasse a ser cobrado? Ou ainda, que o acesso fosse restringido a pessoas escolhidas por algum “google motivo” ou um outro algoritmo, um “PersonRank”?


[1] http://scholar.google.com
[2] Disponível e, http://translate.google.com/translate?hl=pt-BR&sl=en&u=http://www.google.com/corporate/software_principles.html&prev=/search%3Fq%3Dgoogle%2BCorporate%2BInformation%26hl%3Dpt-BR%26lr%3D%26sa%3DG
[3] Cf. http://www.pintura.com.br/deusgoogle/ Deus, neste site, é o Google.
[4] Brin, Sergey. The Anatomy of a Large-Scale Hypertextual Web Search Engine. Disponível on-line em http://www-db.stanford.edu/~backrub/google.html
[5] Entre os mecanismos que tentaram criar índices de qualidade dos sites, por meio de classificações, como estrelas, e outras formas de pontuação, estiveram, por exemplo, o Magellan, o Excite, uma nova forma do Yahoo!, e o Cadê.
[6] O algoritmo PageRank é uma extensão da idéia de contagem de links, com algumas diferenças: os links não são considerados todos iguais; é feita uma normalização do número de links em cada página. O PageRank é definido da seguinte forma: “Assumimos que existam páginas T1, T2, …, Tn que contenham links apontando para a página A (ou seja, as páginas T fazem citações à página A). O parâmetro d é um fator redutor que pode assumir valores entre 0 e 1; nós usamos normalmente d como 0.85 (…) C(A) representa o número de links que existem na página A. O PageRank da página A é dado pela expressão: PR(A) = (1-d) + d [PR(T1)/C(T1) + PR(T2)/C(T2) + … + PR(Tn)/C(Tn)] Observe que os PageRanks formam uma distribuição de probabilidades através de páginas web; assim a soma dos PageRanks de todas as páginas web é igual a um.” Cf. Brin, Sergey. The Anatomy of a Large-Scale Hypertextual Web Search Engine. Disponível on-line em http://www-db.stanford.edu/~backrub/google.html (A tradução do texto é minha.)
[7] Para calcular o PageRank basta baixar uma ferramenta, fornecida pelo próprio Google, ou consultar a mesma disponibilizada em algum site. Utilizamos a oferecida em http://www.supertrafego.com/google_pagerank.asp
[8] Entre as tags . A linguagem html, predominante na construção de sites, utiliza-se de tags para marcar o texto. Cada conjunto de tags determina o início e o fim de uma marcação.
[9] Fonte: Globalink. Disponível em http://www.wnet.com.br/sec_noticias.php?s=7&id=11747
[10] Veja em http://www.google.com/jobs/reasons.html, “dez motivos para você desejar trabalhar na Google” e em http://www.google.com/jobs/benefits.html uma lista dos benefícios oferecidos. A companhia privada anunciou, em junho de 1999, ter assegurado $25 milhões em consolidação de dívida flutuante de patrimônio líquido. Seus sócio incluem Kleiner Perkins Caufield & Byers e Sequoia Capital.
[11] Em gmail.google.com está o webmail com 1 Gb de armazenamento, obrigando aos concorrentes aumentarem a banda oferecida de graça para as mensagens dos usuários.