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Entrevista com o professor Iulo Brandão

Artur Araujo
Publicada no dia 13 de abril de 1997 no jornal Diário do Povo
(Campinas / São Paulo / Brasil)

Diário – Professor, por que até hoje o Brasil não produziu até hoje um grande filósofo?
Iulo Brandão – O Brasil dispõe, desde o início do século, de gente de valor nesta área. Para se tornar entretanto um filósofo de alto nível, é preciso que o País tenha certas condições culturais que permitam o seu surgimento, condições estas que a Europa teve.

Diário – Que condições seriam estas?
Iulo – Uma produção cultural de qualidade sólida, consagrada e difundida junto à população. Agora, no Brasil, em 1934, criou-se, na USP, a primeira faculdade de filosofia na rua Maria Antônia, lá em São Paulo. Ela desenvolveu-se sob a égide dos grandes pensadores franceses, que vieram ao Brasil para dar um certo impulso à universidade. E valeu a pena, pois eles fortaleceram o pensamento filosófico no Brasil. Seus alunos disseminaram as idéias filosóficas no Brasil. Isso não quer dizer que eles eram imitadores. Foram homens que refletiram a partir da temática trazida por esses professores. Mas essa reflexão ia até um certo ponto. Não deu margem para que surgisse um homem da categoria de Kant, por exemplo. Mas gerou gente muito boa.

Diário – O senhor poderia citar algum nome de filósofo formado por esses professores que se destacou?
Iulo – Laerte Ramos de Carvalho, que se dedicou à filosofia da Educação, e Cruz Costa, que se tornou um porta-voz do positivismo.

Diário – Há um projeto, que já está há algum tempo em discussão junto a parlamentares, a filósofos da educação e pedagogos, de se reimplantar a filosofia mas escolas de segundo grau. O que o senhor acha desta iniciativa?
Iulo – Em princípio, é louvável a idéia. Resta entretanto saber se vamos colocar professores realmente competentes para lecionar. O risco que vejo nesta iniciativa bem-intencionada é que os professores, em vez de ensinar, façam proselitismo, ou seja, a defesa de um ou outro ponto de vista pura e simplesmente. Precisaríamos de gente muito boa para fazer isso. E a filosofia é um objeto sério de estudo. Outro risco são aqueles professores de fazem do ensino a simples exibição de erudição vazia, sem levar o estudante a uma tomada de consciência da temática filosófica, que é mais importante. Se nós tivermos gente qualificada, é a melhor coisa que nós podemos fazer, como havia no passado, no antigo curso clássico…

Diário – …Que equivalia ao curso de segundo grau…
Iulo – Na época havia dois tipos de curso, o científico, que tinha um ano de filosofia, e o clássico, com dois anos de filosofia. Eu fiz o curso clássico ainda em São Carlos onde nasci, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Tive aulas com José Geraldo Pereira Lima, da USP, que era um grande professor. O clima que reinava na época era de grande efervescência cultural filosófica em São Carlos…

Diário – A que o senhor atribui o fim do curso de filosofia nas escolas de segundo grau?
Iulo – Com a invasão da tecnologia e das ciências exatas, a filosofia sofreu um pequeno abalo. Isso fez com que o curso clássico terminasse sendo extinto, substituído pelo curso científico.

Diário – Professor, o escritor peruano Vargas LLosa escreveu recentemente que cada vez mais é difícil encontrar jovens que se dedicam à área de ciências humanas com um bom nível cultural, com uma visão de mundo rica e criativa, o senhor concorda com isso?
Iulo – Ele tem razão, sem dúvida. As ciências humanas sofreram um certo recuo por parte do interesse do jovem. O que passou a se propagar e difundir foram as ciências exatas, que invadiram o mundo. O nível caiu, igualmente, por causa das poucas perspectivas do campo de trabalho para as áreas humanas e sociais. As ciências exatas oferecem um grande campo de trabalho na área tecnológica.

Diário – O mercado então ajudou a excluir a filosofia?
Iulo – Sim, ou pelo menos marginalizou. Um estudante de filosofia, se tiver de buscar um mercado de trabalho para sua atividade vai ter dificuldades imensas.

Diário – Quais as perspectivas profissionais de uma pessoa formada em filosofia?
Iulo – Não há outras opções. Trata-se de uma atividade especulativa. Ele pode derivar sua formação para a psicologia e outras áreas afins. Por outro lado, as universidades estão com um grande número de alunos de filosofia. A USP mesmo tem muitos. Esses alunos ou têm boas condições financeiras, e não precisam procurar mercado de trabalho ou então, no plano da docência, eles terminam assimilados pela própria universidade.

Diário – Professor, há um dito italiano que define a filosofia como “a ciência que, sem a qual ou com a qual, o mundo vive tal e qual”, ou seja, ela é uma disciplina dispensável. O senhor concorda com a definição?
Iulo – É um dito superficial. O autor devia pensar que a filosofia deveria mudar o mundo somente pelo fato de existir. Mas, na verdade a filosofia mudou o mundo. Veja por exemplo Descartes…

Diário – Ele mudou as ciências exatas…
Iulo – Ele mudou a concepção do mundo, introduzindo o racionalismo, gerando modificações profundas.

Diário – Foi ele que introduziu a matemática como idioma das ciências exatas…Iulo – Há também Hegel, que fez a apologia do abstrato como verdade, abrindo caminho para ideologias totalitárias…

Diário – … Principalmente ao idolatrar o processo histórico e o Estado, colocando-o acima dos indivíduos, influenciando Karl Marx … Como o senhor vê uma iniciativa pedagógica de filosofia como o livro “O mundo de Sofia”, de Jostein Gaader?
Iulo – O sucesso foi muito grande porque ele envolveu o pensamento filosófico em uma linguagem mais literária. Podemos citar outro livro recentemente publicado, “Convite à filosofia”, de Marilena Chaui, que não teve a mesma saída. Isto porque ela utiliza nesta obra uma terminologia mais técnica, sem envolver em conotações literária. É importante entretanto destacar que quem acabar de ler esse o livro não sai dele como dono da disciplina. É uma espécie de prefácio à Filosofia.

Diário – E o senhor acha positivo o lançamento deste tipo de obra?
Iulo – Como estímulo, sim. Mas corre o risco de banalizar uma temática que exige outra linguagem. É perigoso. Se um aluno tiver um bom professor de filosofia, o livro ajudará a introduzir a disciplina. Só que não pode falar no estímulo.

Diário – Professor, o senhor é um filósofo neotomista. Como um filósofo do século 13 pode ainda ter algo a dizer em filosofia às vésperas do século 21?
Iulo – É uma coisa meio difícil de responder, porque precisamos ter um certo cuidado com a definição dos termos. Em primeiro lugar, é preciso compreender que, no plano da história da filosofia, podem haver momentos em que determinados sistemas, como doutrina, sofram um abalo no plano histórico. As condições da Idade Média não as temos mais. Mesmo na Renascença, as condições não eram idênticas, mesmo nas condições mais humanistas. Ou seja, em função do ponto de vista histórico, há de fato rupturas. Há entretanto outro plano, que é o plano temático. O fato de ter havido uma ruptura histórica não implica que a temática tomista tenha se perdido. A temática é mais complexa. Ela vai além da história, porque ela não é às vezes esgotada, exaurida, na época em que foi criada.

Diário – De que maneira a temática tomista é atual?
Iulo – Ela tem a ver na medida em que ela faz uma crítica à temática do racionalismo, que vem de Descartes até hoje.

Diário – De que forma?
Iulo – O tomismo põe em xeque uma série de questões, que se problematizaram ao longo dos séculos. Então o tomismo coloca certos problemas, por exemplo, a unidade entre essência e existência, a unidade entre o uno e o múltiplo. Esta temáticas se enfraqueceu com o racionalismo, que permaneceu mais no uno do que no múltiplo, transformando a filosofia em algo abstrato e formal, que acabou se impondo ao múltiplo, em vez de unificar o múltiplo ou desprezar o múltiplo, criando uma espécie de tiraria.

Diário – Ou seja, a razão muitas vezes pode se transformar em uma espécie de tirania quando, por exemplo, estabelece certos objetivos que não levam em conta o ser humano. É aquilo que o filósofo Husserl definia como o “racionalismo das pirâmides”, que cria um objetivo desumano, no caso, construir pirâmides, colocando a razão em função desta meta e empregando todos os meios para executar a missão de forma mais racional possível, nem que seja através da adoção da escravidão e da própria deterioração econômica, social e moral desta sociedade…

Iulo – Sim. O que acontece nos dias de hoje: uma série de pensadores retomaram a temática de São Tomás de Aquino. Do ponto de vista temático, ele tem muito a dizer.
Diário – O racionalismo gerou uma espécie de encruzilhada para a civilização.

Iulo – Correto. Criou-se um abismo entre o uno e o múltiplo, entre a essência e a existência. Ora, quando crio um abismo, crio problemas que não podem ter mais solução. Ora, deixar problemas em aberto traz problemas enormes.
Diário – De que forma exatamente o tomismo questiona o racionalismo?

Iulo – São Tomas de Aquino colocou um tema que o racionalismo tinha praticamente marginalizado em nome dos seus pressupostos. O racionalismo diz o seguinte: só é verdade aquilo que está incrustado nas idéias. A idéia que é verdade. Há entretanto ou outro mundo, que é o mundo da contingência, que é o mundo real, o mundo da existência, somos eu e o senhor, as árvores, as pedras etc. Essas coisas que se movem, corrompem-se, modificam-se… esse mundo “escorregadio” que vivemos. Pois bem, o tomismo então se questiona: como tomar o mundo da existência em face das idéias: eu separo ou incluo. Então vem a tese do neotomismo. Vamos tomar uma árvore. Por exemplo, no chamado idealismo é a idéia que fica, e aí vou manipulando. Para isso, eu tenho de matar a árvore e só ficar com a idéia. Como unir a idéia com a coisa concreta? O tomismo vem e reúne o objeto sensorial com a idéia de árvore. De que for-ma? Na medida em que reconheço que na idéia de árvore já está a forma. Ela tem algo de formal nela, aí então uno aquilo que havia sido separado pelo racionalismo e por aquelas linhas que põem ênfase nas idéias só e que desprezam o homem empírico.

Diário – Ou seja, o tomismo retoma o ser humano e o mundo real como prioridade, submetendo o mundo das idéias a um segundo plano.
Iulo – Exatamente. Para evitar esse abismo entre as idéias e o homem empírico, diz o neotomismo, temos que retomar as coisas tais como elas são dadas na percepção. Penso que o neotomismo também conseguiu retomar sua atualidade graças aos pensadores existencialistas, como Sartre.

Diário – Acho que houve também condições históricas, como o “racionalismo” da criação das bombas atômica e de hidrogênio, o “racionalismo” da indústria que trabalha com a ciência genética, que manipula seres vivos e está tentando patentear seres vivos, o “racionalismo” da Alemanha nazista, o “racionalismo” neoliberal, que faz do controle dos gastos públicos uma prioridade acima de qualquer ação fraterna e social. São formas enlouquecidas de razão, que transformaram idéias em princípios inquestionáveis. É uma razão tão centrada em sua própria lógica que esquece o ser humano.
Iulo – Esquece, e se o “resto”, que está fora desta razão começar a insistir, ele o destrói. A meu ver, o neotomismo é extremamente fecundo. Agora, eu posso tomar o neotomismo como filosofia só, sem me ater à parte teológica só, que está relacionada a um plano mais religioso. O neotomismo para mim é mais um estado de espírito que permite ao homem dissolver essas aporias todas que vieram com o idealismo.

Diário – O senhor é católico?
Iulo – Sou, por convicção filosófica.

Diário – E quanto à temática teológica de São Tomas de Aquino?
Iulo – Aqueles que querem ir mais longe em relação ao pensamento deste filósofo, devem estudar teologia. Ele foi um teólogo profundo que se apropriou da filosofia aristotélica, que é uma filosofia mais fecunda, que é a filosofia do senso comum, para a teologia.

Diário – E por que o senhor não se dedica à teologia?
Iulo – Trata-se de um assunto extremamente complexo que exige uma postura não só filosófica…

Diário – O tomismo então é uma forma de humanismo?
Iulo – O tomismo retoma o humano, no sentido que o homem vive no mundo e tem suas necessidades psicológicas e até metafísicas. Mas ele não para aí. Senão seria uma espécie de humanismo ateu ou até mesmo racionalista.

Diário – Então o neotomismo no século 20 é uma crítica ao individualismo e ao racionalismo de nosso tempo?
Iulo – Na Idade Média, as questões social, econômica e política eram muito restritas. Da Renascença para cá elas tiveram um crescimento enorme, colocando o homem e o econômico no centro da história. A miséria se alastrou. As dificuldades e diferenças de classe surgiram. Esses problemas, que não existiam na época de São Tomas de Aquino passaram a existir agora, e o desafio é como conciliar a metafísica com o problema do mundo prático, sem abrir mão de sua dimensão metafísica. Os neotomistas se interessaram pelo indivíduo sem abrir mão da metafísica, pois sem a metafísica coloca o homem um pouco acima dele, até para ele não se limitar a si próprio, não se asfixiar, em busca de valores absolutos. Disso, o neotomismo não abre mão.

Diário – Então, o neotomismo coloca o homem em função de valores?
Iulo – O neotomismo, que é um estado de espírito, procura voltar para o prático, mas diz o homem não pode viver para o prático, que é de certa forma o Estado, que é a encarnação do absoluto. É preciso inverter o raciocínio. O Estado é que vive para o homem. O Estado, com seus dispositivos legais, deve viver para o homem. Isto significa que o homem vai além do Estado. E vai além do Estado em direção a que? A certos valores, que o neotomismo diria absolutos, como Deus e a moral fraterna.

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Obra silencia sobre lutas dos minoritários

MARCIO GOLDMAN
ESPECIAL PARA A FOLHA

“Divisões Perigosas” dá continuidade a uma conhecida intervenção política contra o Estatuto da Igualdade Racial e a lei de cotas em tramitação no Congresso Nacional: de seus 46 artigos, dois terços já foram publicados em jornais e revistas de grande circulação nacional (11 deles na Folha). Seu argumento não é menos conhecido: qualquer política pública em benefício dos que sofrem discriminação racial é perigosa e corresponde a uma forma de racismo. Se a intervenção é política, sua legitimidade é buscada na qualificação profissional dos autores. O que permitiria esperar mais rigor nos textos e uma maior clareza na explicitação das opções intelectuais adotadas. Mas não é difícil perceber, desde o título, os pressupostos de “Divisões Perigosas”:

falar em raça é “perigoso” porque “divide” uma unidade transcendente, a
humanidade (alguns preferem a sociedade ou a identidade nacional), e porque,
garantem os cientistas naturais que colaboram no livro, “raça” não existe. O que
“existe” é, de um lado, o “código genético”; de outro, completam os cientistas
sociais, a estrutura e os valores da sociedade brasileira (que, asseguram, não é
racista).

Conceito de raçaSe raça foi durante muito tempo um conceito tido por científico, o reconhecimento de que certezas passadas da ciência não passam, hoje, de erros, deveria levar a uma certa modéstia, não a novas certezas mais uma vez disseminadas com “autoridade científica”. Intelectuais acostumados a lidar com a construção social do conhecimento, a inextricável mistura de ciência e interesses e a pôr os fenômenos em seu contexto, deveriam admitir que a recusa do conceito de raça pela genética não significa a “descoberta” de que raças não existem. E que essa recusa não tem o poder de fazer calar categorias homônimas utilizadas por outros agentes sociais em suas lutas. Isso não ocorre apenas quando se evoca a ciência para garantir a inexistência das raças, mas também quando se opõe a “verdadeira” história da África ou a estrutura “real” da sociedade brasileira ao que se considera meras ilusões.

“Desessencializar” é tarefa complexa, especialmente quando, via de regra, consiste na substituição de uma essência por outra. Enfrentar o racismo”Raça” não é nem uma coisa cuja existência ou inexistência poderia ser arbitrada pela ciência, nem um simples recorte equivocadamente efetuado em uma unidade originária. É uma categoria que pode ordenar de diferentes maneiras a diversidade do real e da experiência. Quando os movimentos negros falam em raça, não estão se referindo a genótipos ou a louváveis ideais abstratos de igualdade, mas a experiências coletivas de discriminação e resistência. Quando o combate às desigualdades raciais assume a forma de políticas públicas é para enfrentar o racismo no campo sociopolítico, não apenas no das ideologias e preconceitos. Ao silenciar sobre as lutas e reivindicações dos movimentos minoritários, o livro converte alvos do racismo em racistas potenciais e confunde o combate à discriminação com “políticas raciais” inventadas por intelectuais influenciados por idéias estrangeiras e políticos em busca de votos. E ao se concentrar nas “falsas idéias” e não no conteúdo efetivo das práticas racistas, acaba por associar essas lutas e essas políticas à Ku Klux Klan, ao apartheid e até ao nazismo, disseminando um medo que não sabemos bem de quê ou de quem é. Talvez de uma experiência sociopolítica visando modificar o quadro geral de desigualdade e exclusão no qual vivemos.


MARCIO GOLDMAN é professor associado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Tirando os óculos e as lentes de contato?

Publicado no Site da Revista Caros Amigos, em 8 de junho.
por Adriana Dias
A presente reflexão tenta se centrar na relação entre estudantes, imprensa e Estado. Os estudantes da USP (mas, o movimento amplia-se para todas as Universidades Públicas Paulistas), a imprensa é a grande mídia (em especial a conduzida pela Globo, pela Folha de São Paulo, pelo Estado e pela Veja – nesta em especial o blog do colunista Reinaldo Azevedo1) e o Estado é o paulista, neste início de “gestão” do governador José Serra. Não pretendo dar conta da relação, nem esgotar o assunto, mas gostaria de problematizar como os estudantes são tratados pela grande mídia, pelo governo, em suas comunicações a esta mesma mídia. A situação está a tal ponto absurda, que no Observatório de Imprensa, o jornalista, pós-graduado em Ciências Sociais, pela USP, Luiz Weis comentou: “Dá vontade de ocupar as redações da Folha e do Estado em protesto contra a lastimável cobertura da crise aberta nas universidades públicas paulistas, em especial na USP, pelo decreto do governador José Serra de 1º de janeiro, que “organiza a secretaria de Ensino Superior e dá providências correlatas2”… Esta observação revela como o evento da ocupação da USP por estudantes, em 3 de maio último, divide a imprensa: há a grande mídia, que deseja intervenção policial na USP, contra os “vândalos”, “mentirosos”, “vagabundos”, “remelentos”, para citar apenas algumas das formas como a imprensa se dirige a estudantes, que, diga-se de passagem, conquistaram o “status” de estudantes da USP, por meio de um processo vestibular que se encontra entre os mais difíceis do país, há uma outra mídia que reclama o direito à desocupação pacífica pautada ela negociação e pelo diálogo com a reitora, nunca com os policiais.
O governador José Serra, ainda que nas últimas horas tenha se pronunciado “a favor da desocupação pacífica”, talvez diante da enxurrada de críticas que recebeu desde que o estopim da ocupação da Reitoria pelos alunos explodiu seu ideal de governo exemplo-perfeito-garantidor-de-eleição-presidencial, a primeira postura de José Serra foi a de criticar duramente os alunos, atribuindo seu ato ao “desejo de agitar” e baseado em “mentiras”. A este comentário acrescentou o seguinte, legitimando-o por ter sido presidente da UNE: “Fazíamos agitação. Estávamos baseados em posições políticas, em teses que podiam ser discutíveis, mas eram verdadeiras. Não estavam baseadas em miragens e mentiras”.
A Folha de São Paulo adota a postura de encarar a ocupação como “uma invasão”, e dispara no sensacionalismo das fotos, mostrando helicópteros da Polícia Militar sobre o prédio da reitoria”, fotos do comandante da operação, com sugestões de como os jovens devem se proteger de um provável confronto: “é preciso evitar óculos e lentes de contato”. Na verdade, é a própria folha que parece evitar “óculos e lentes de contato” no seu confronto com a verdade: várias vezes avisou que o patrimônio havia sido destruído ou documentos teriam sido extraviados, para ser desmentida por fotos e testemunhos postados pela Internet afora. Nasce uma nova arena de debate, e a possibilidade de ver fotos e filmes, disponibilizados pelos estudantes, parece ter esvaziado, pelo menos um pouco, a possibilidade de “se inventar qualquer coisa pelo discurso”, como um jovem postou num comentário.
A ocupação da reitoria, ato a que eu credito a condição de legítimo, de pacífico, de preservador, da Universidade Pública e dos direitos constitucionais garantidos, se instala como uma resposta a um Executivo que insiste em governar por decretos, e enquanto o faz, precariza as condições educacionais, se recusando ao debate e ao diálogo. Diálogo e debate amplamente aberto aos estudantes, que exibem na Internet sua pauta de reivindicações, as críticas que recebem, as monções de apoio que lhe são dadas.
Fala-se, nos portais que se afinam com a fala do governador, que as Universidades públicas são elitizadas, ignorando o grande número de alunos pobres que nelas entram, vencendo a lógica de exclusão do ensino público fundamental e médio, fala-se que eles são “um povo apartado da realidade”. Pede-se por um grande líder, que use da força e os faça calar. Diz Hannah Arendt: “o povo, em todas as grandes revoluções, luta por um sistema realmente representativo, a ralé brada sempre pelo «homem forte», pelo «grande chefe».[…]”. Esta imprensa não é a voz do povo. É a voz da ralé. Os estudantes lutam pelo povo, querem ampliar o debate acerca da educação pública de qualidade para evitar que, no estado de São Paulo, a universalização do ensino superior se mescle com a depredação absoluta, como aconteceu ao ensino médio e ao fundamental durante todos estes anos de governo “desenvolvimentista”. E de quem seria culpa desta perda de qualidade? Dos nordestinos, como afirmou José Serra, ainda candidato? Claro que não: a culpa é dos que evitam “óculos e lentes de contato” para evitar ver o compromisso necessário: educação de qualidade se faz com verbas, com política públicas de valorização do professor, com incentivo à politização dos alunos, para que como estes, da USP se mobilizem, por si, pelo futuro, respeitando a aliança insolúvel, garantida constitucionalmente entre pesquisa, ensino e extensão, que os decretos visam fragmentar.
Este é um movimento popular, o vídeo do dia das mães, disponibilizado pelos alunos em seu blog3, é uma amostra de como esses alunos souberam preservar o sentido de povo. Usar de força policial é totalitário: eles questionam um ato administrativo, apontam, junto com juristas, jornalistas, sociólogos, antropólogos, filósofos, cientistas políticos, artistas, e outros intelectuais de várias s áreas, para o avanço sobre a autonomia das Universidades Paulistas. Governador, miragem é achar que vai se resolver isso com força, mentira é negar a verdade e a força de sua luta política.


1 O blog tem se dedicado muito ao assunto e considera o ato dos alunos”uma ofensa ao Estado Democrático de Direito”. http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/
2
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/blogs.asp?id_blog=3&id={C2F67501-BF58-40DB-B2EA-6E0D7EA4740F}
3
http://ocupacaousp.noblogs.org/

De raças, racismo e sociobiologia

Nélio Rodrigues – Revista Galileu
Sérgio Danilo Pena – Professor titular do Departamento de Bioquímica e Imunologia da UFMG e presidente do Gene – Núcleo de Genética Médica de Minas Gerais
Lamentavelmente o professor José Alexandre Felizola Diniz Filho entendeu de maneira equivocada as minhas declarações publicadas em GALILEU em fevereiro de 2003. A fonte da sua confusão parece ter sido o fato da palavra “raça” poder assumir diferentes significados.
Biologicamente, a raça é usada como um sinônimo de subespécie e caracterizada pela existência de linhagens evolutivas distintas dentro das espécies (Templeton, A.R. Am. Anthropol. 100: 632, 1999). Assim, a presença de diferenciação genética é uma condição necessária, embora não suficiente, para a definição de subespécies ou raças. Na prática, a diferenciação genética é mensurada comparando a variabilidade entre indivíduos dentro das raças com a variabilidade entre as raças. Como no Homo sapiens a variabilidade dentro das chamadas “raças” (grupos continentais) representa 93% a 95% da variabilidade genética total, caracteriza-se assim a ausência de diferenciação genética e, conseqüententemente, a inexistência de raças humanas.
Entretanto, a palavra “raça” também serve para denotar categorias socialmente definidas.
Em seu livro “Classes, Raças e Democracia”, Antônio Sérgio Guimarães distingue a crença de que raças existam cientificamente (“racialismo”) da prática odiosa de discriminação com base em “diferenças raciais” (racismo): indivíduos podem ser racialistas ou não-racialistas e, separadamente, racistas ou anti-racistas. Fica claro que a inexistência de raças do ponto de vista biológico não impede a ocorrência do racismo, já que este depende somente da existência de “raças” como construções sociais. Esta diferença entre os dois sentidos da palavra “raça” é sutil e parece ter escapado a Diniz Filho. Mas ela é importantíssima, como demonstra a polêmica sobre o pedido de habeas-corpus de Siegfried Ellwanger, atualmente sendo apreciado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Ellwanger foi condenado por crime de racismo no Rio Grande do Sul, por ter editado obras de conteúdo anti-semita. A argumentação do seu recurso perante o STF, surpreendentemente acolhida pelo ministro relator, foi de que ele não poderia ter cometido o crime de racismo previsto na Constituição, porque os judeus não compõem uma raça. Em brilhante opinião contrária, o ministro Maurício Corrêa defendeu uma interpretação “teleológica e sistêmica” da Constituição Federal, afirmando que a genética baniu de vez o conceito tradicional de raça e que a divisão dos seres humanos em raças decorre de um processo político-social originado da intolerância dos homens. O julgamento final estava previsto para o fim de abril.
Sobre o tema da sociobiologia, abordado por César Ades em carta na edição de abril, reafirmo que o paradigma de organização social humana apresentado em 1975 por Edward Wilson no livro “Sociobiology: The New Synthesis” é inaceitável, por ser reducionista e biologicamente determinista. Como Lewontin, Rose e Kamin afirmam em “Not in Our Genes”: “A Sociobiologia é uma tentativa de fornecer um alicerce científico a Adam Smith [1723-1790]. Ela mistura mendelismo vulgar, darwinismo vulgar e reducionismo vulgar, a serviço do status quo”. Assim, não é surpresa nenhuma que a sociobiologia tenha sido acolhida de braços abertos pela direita americana, que passou a usá-la para justificar “cientificamente” suas posições reacionárias.