Etnografia no Virtual

um olhar antropológico na WEB

Arquivo para poemas

Dois Parlamentos

– Nestes cemitérios gerais

os mortos não mostram surpresa

– A morte para eles

Foi coisa rotineira.

– Nenhum tem o ar de ter morrido

em instantâneo ou guilhotina.

– Porém de um sono lento

que adorme, não fulmina.

– Em nenhum deles há as posturas

desses que morrem sob protesto.

– É sempre a mesma pose

sem nenhum grito, gesto.

– Entre eles gestos de eloqüência

não se vêem nunca, quando a morte.

– Todos morrem em prosa,

como foram, ou dormem

um poema de João Cabral de Melo Neto
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Poema contra o racismo

Mãos Dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.


Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)